sexta-feira, 9 de abril de 2010

20 mil léguas submarinas

Não sou fã do Rio de Janeiro. Acho que deve ser um lugar muito bonito, quero visitá-lo, fazer todos os passeios turísticos, andar em Copacabana ouvindo bossa nova, mas não tenho esse amor todo pelo Rio. Porém, tenho que admitir que essa tragédia que está acontecendo por lá acabou mexendo comigo.

Estava no trabalho e ouvi uma notícia do enterro de um garoto de 8 anos, morto em um desabamento. Tinha visto a foto no Uol ontem, do pai abraçado ao filho já morto. Aquela foto me emocionou, mas eu preferi não entrar na matéria. Hoje fiquei sabendo que aquele garoto chegou a se comunicar com os bombeiros, debaixo dos escombros. Não foi salvo porque houve um outro deslizamento, e quando os bombeiros conseguiram resgatá-lo ele já estava morto.

Ouvindo isso eu quase chorei. É sério. Me coloquei no lugar do pai. Se fosse um dos meus irmãos, nem precisava ser meu filho... é muito triste pensar que por um detalhe, alguns segundos a mais, um garotinho de 8 anos morreu. Há milhares de outros casos, mais de 150 mortes em várias cidades do Rio, mas esse é o que mais me chamou a atenção.

Algumas imagens jamais sairão da minha memória. Me lembro de uma foto da Folha de S. Paulo, de uma rebelião em penitenciária, em que presos seguravam um objeto redondo, parecido com uma caixa ou um vaso de barro. Não era um objeto - era a cabeça de um preso, com um pedaço de pano atravessando-a de uma orelha a outra. Nas tragédias mais recentes, como a do Haiti, o terremoto do Chile, imagens de pessoas sem casas, rostos com olhar perdido. No dia 11 de setembro de 2001, o avião entrando no edifício, os prédios desabando. A foto do pai abraçado ao filho morto, chorando, é mais uma que ficará gravada nas 'minhas retinas fatigadas', como diria Drummond.

Caríssimos que me leem, a vida é frágil demais. Por isso devemos cuidar dela, nos cercar de quem vale a pena, dizer que amamos sempre. Fico pensando que, se aquele pai soubesse que não veria mais o filho com vida, provavelmente teria feito algo diferente no dia. Mas nós nunca sabemos quando é a última vez. Essa é a graça e a desgraça da vida. Vocês já sabem que penso mesmo assim, já perdi muito e sei como dói. Por isso sempre olho para tudo como a última vez. Não digo que estou certa, nem recomendo que ninguém ser assim, até porque não é muito fácil.

Faz pouco tempo tomei uma resolução: não quero me importar com o que não importa. Não é simples, e nem sempre eu consigo, mas até que vem dando resultado. Estou mais tranquila nestes últimos tempos, e penso que talvez seja por isso. A resolução acaba me afastando de algumas coisas, mas é extremamente necessária.

Para terminar, repito: a vida é frágil. E acrescento: é curta. Um cantor também já disse que 'a vida é tão rara'. Então, citando este mesmo cantor, digo que "quando olhar para o lado, só quero estar cercado de quem me interessa". E do que realmente interessa.



Lenine - É o que me interessa

"Daqui desse momento
Do meu olhar pra fora
O mundo é só miragem
A sombra do futuro
A sobra do passado
Assombram a paisagem
Quem vai virar o jogo e transformar a perda
Em nossa recompensa
Quando eu olhar pro lado
Eu quero estar cercado só de quem me interessa

Às vezes é um instante
A tarde faz silêncio
O vento sopra a meu favor
Às vezes eu pressinto e é como uma saudade
De um tempo que ainda não passou
Me traz o seu sossego, atrasa o meu relógio
Acalma a minha pressa
Me dá sua palavra
Sussurre em meu ouvido
Só o que me interessa

A lógica do vento
O caos do pensamento
A paz na solidão
A órbita do tempo
A pausa do retrato
A voz da intuição
A curva do universo
A fórmula do acaso
O alcance da promessa
O salto do desejo
O agora e o infinito
Só o que me interessa"

4 comentários:

  1. Uma das imagens que me marcaram nessa tragédia de Niterói foi o garoto trêmulo, em estado de choque, sendo socorrido, e as pessoas que não conseguiam nem terminar as frases por não saber o que dizer diante da perda de famílias inteiras.
    Outra imagem que não esqueço é das meninas correndo nuas nas ruas de Hiroshima fugindo da explosão atômica.
    Ontem mesmo eu estava lavando louça e ouvindo um dos meus poetas preferidos contando "é preciso amar as pessoas como se não houvesse amanhã, porque se você parar pra pensar, na verdade não há."
    Somos pequenos, frágeis, etéreos. Quando eu fiz minha mais recente postagem nos Jardins eu pensava nisso também, pois o que fica é a nossa memória, as coisas grandiosas que fizemos (e há muitos tamanhos de atos grandiosos, que fazemos para multidões ou para indivíduos).
    Quero terminar dizendo que vc faz parte do que interessa na minha vida, eu te amo muito e TOME CUIDADO EM PERUÍBE!!! Volte inteira! Bjo.

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  2. Ah, só pra comentar dessa música: Não sei se ele compôs a letra, mas isso é um terceto, muito bonito por sinal. Só que ele matou a melodia, ou melhor dizendo: ele não soube dar melodia, ficou chaaaato pra doer. Esse terceto tem uma batida mais acelerada, não era só pra voz e violão. Mas uma letra de muito bom gosto, deveras.

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  3. Fábio, fique calmo, eu vou voltar inteira, hehe. E quanto à música, uma dica: dê um tempo, umas semanas, e volte a ouvir. às vezes eu também penso assim quando escuto uma música, mas é porque não era a minha hora de ouví-la. Isso acontece com o Coldplay, que é uma banda que eu amo mas tenho que ouvir mais de uma vez, e com espaço de tempo. Essa música me tomou de assalto, pode ser que te tome também. Beijos!

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  4. É muito triste mesmo.
    Mas ainda acho que a população é a grande culpada por tudo isso, então, infelizmente, não consigo sentir pena. Sei que chega a ser duro esse meu comentário, mas é o que eu penso.
    E eu sempre vivi intensamente todos os meus dias, sempre fui intensa com as pessoas que fazem parte do meu dia a dia e se qualquer coisa ruim (Deus me livre) acontecer comigo, já fiz minha parte hehe...

    Beijos.

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