Primeiro, deixa eu explicar o que eu estou chamando de mundo real. Eu não tenho vivido nele. Acordo, vou pro trabalho (na USP), vou pra aula (na USP), volto pra casa. Converso com meus amigos, da turma aqui de SP. Converso com o namorado. Leio postagens, matérias, facebooks. Leio livros, discuto livros com amigos. Discuto idéias e ideais. Mas convivo, quase o tempo todo, com pessoas de mente aberta - pessoas que não acham estranho poliamor, mesmo que não o pratiquem; pessoas que entendem que preconceitos não fazem muito sentido; que não querer o casamento civil gay não faz o menor sentido; que o feminismo não é um movimento formado para odiar homens; e que uma mulher tem o direito de andar como quiser, e ficar com quem quiser, quantas vezes quiser, sem ser taxada de vagabunda.
Mas esse não é o mundo real. No mundo real, os preconceitos estão a todo vapor. E as pessoas nem mesmo percebem, de tão enraizados. No mundo real eu ouço conversas que dizem que as mulheres de hoje não se dão valor, e depois querem que os homens as levem a sério. Escuto que não existe essa de privilégios, e sim direitos respeitados. Vejo compartilharem vídeos e notícias pichando auxílios como o bolsa família e as cotas (também não penso que esses auxílios sejam a solução, nem os defendo ferrenhamente, mas no mundo real as pessoas não veem, ou fingem não ver, que apesar de tudo eles ajudam)
No mundo real, pessoas falam de baixar a maioridade penal como se essa fosse a solução suprema para os crimes feitos por menores. Fala-se que "bandido bom é bandido morto", e apoia-se os atos desmedidos da polícia. As pessoas desse mundo tem saudade da ditadura, e pensam que essa história de Comissão da Verdade tinha que punir era os guerrilheiros, e não os pobres velhinhos, que estavam só salvando o Brasil do comunismo.
No mundo real, as pessoas querem morar nos EUA, porque lá sim é país de 1º mundo. Essas pessoas querem comprar cada vez mais carros, acham um abuso ter que respeitar rodízio, e então compram um carro só pra esse dia. Vão de carro pro trabalho, e reclamam diariamente dos engarrafamentos.
Eles querem a marcha do orgulho hétero, dizem que hoje em dia há perseguição contra religiosos, e que é uma pouca vergonha ver dois homens se beijando na rua. Odeiam quem se manifesta, sobretudo se quem se manifesta faz faculdade, especialmente se for pública. Pensam que é tudo um bando de vagabundo maconheiro, que deveria estar estudando.
O mundo real trata futebol como problema sério, pra depois reclamar que brasileiro só pensa em futebol e carnaval, e não se importa com a corrupção. O mundo real fala mal da Angelina Jolie porque ela fez uma cirurgia para salvar a própria vida. O mundo real lê a Veja, e acredita. Vê os telejornais e acredita. É fã do Datena.
As pessoas do mundo real querem usar camisetas com "100% branco" escrito, e não veem nada de errado nisso. No mundo real, se uma mulher é estuprada, a culpa é dela - porque tava bêbada, de roupa curta, se insinuou. No mundo real, as mulheres não acham errado um homem pagar tudo, porque é dever deles.
No mundo real, pessoas morrem por causa de intolerância, crimes de gênero. Mas se quisermos fazer leis pra impedir isso, estamos indo contra a Constituição - aquela que diz que todos temos direito à vida. O mundo real quer tirar direitos de mulheres que foram estupradas / correm risco de vida / vão ter fetos anencéfalos em nome dos diretos de algumas células. E eles querem matar todos os drogados, ou prendê-los bem longe.
Eu poderia continuar aqui por horas com essa lista, mas acho que já me fiz entender.
E a conclusão que eu chego é: não sei mais viver no mundo real.
INVENTÁRIO DE PERDAS
Há 7 meses