domingo, 27 de setembro de 2009

Bicarbonato de Soda

Mais uma vez caída. Só para variar, caída. Essas últimas semanas tem sido difíceis, tenho enfrentado alguns problemas que nem imaginava que existiam. Nada no trabalho, que está muito bem. É na vida pessoal, nas famílias.

Não vou entrar em detalhes, não vale a pena, e não quero expor ninguém. Só vou dizer que estou muito abalada, me sinto sem chão, caída mesmo. Não sei o que fazer, e continuo pecando pela ingenuidade. Às vezes detesto mesmo ser ingênua, acredita na boa vontade, na verdade. Esqueço que, se tudo é relativo, a verdade também o é.

A fase tá difícil, estou levando rasteiras, mas ainda penso que tudo pode melhorar... algo em mim não me deixa pensar o contrário. Apesar de tudo, não consigo deixar de ser assim. Ainda vou levar muito na cabeça por confiar, ainda vou derramar muitas lágrimas por acreditar. Mas não posso deixar de acreditar. Sem minhas esperanças, o que vai ser de mim?

Bicarbonato de Soda - Álvaro de Campos

Súbita, uma angústia...
Ah, que angústia, que náusea do estômago à alma!
Que amigos que tenho tido!
Que vazias de tudo as cidades que tenho percorrido!
Que esterco metafísico os meus propósitos todos!

Uma angústia,
Uma desconsolação da epiderme da alma,
Um deixar cair os braços ao sol-pôr do esforço...
Renego.
Renego tudo.
Renego mais do que tudo.
Renego a gládio e fim todos os Deuses e a negação deles.
Mas o que é que me falta, que o sinto faltar-me no estômago e na
circulação do sangue?
Que atordoamento vazio me esfalfa no cérebro?

Devo tomar qualquer coisa ou suicidar-me?
Não: vou existir. Arre! Vou existir.
E-xis-tir...
E--xis--tir ...

Meu Deus! Que budismo me esfria no sangue!
Renunciar de portas todas abertas,
Perante a paisagem todas as paisagens,

Sem esperança, em liberdade,
Sem nexo,
Acidente da inconseqüência da superfície das coisas,
Monótono mas dorminhoco,
E que brisas quando as portas e as janelas estão todas abertas!
Que verão agradável dos outros!

Dêem-me de beber, que não tenho sede!

sexta-feira, 11 de setembro de 2009

Go Back

Parece às vezes que eu tenho mais vontade de escrever quando estou triste por algum motivo qualquer. É como se escrever fosse uma terapia, uma sessão de descarrego, sei lá. Aí, venho aqui e despejo esse monte de palavras, esperando que alguém leia ou não. Não sei o que espero quando escrevo. Como falei aqui uma vez, não tenho pretensão nenhuma com esse blog. Só sinto uma vontade enorme e incontrolável de escrever qualquer coisa.

Essa semana aconteceram algumas coisas chatas, outras tristes, outras diferentes. Os meninos e a loira estão agora trabalhando comigo aqui em Sampa. Isso até causou um fato... mas não vou comentar, já comentei no post anterior. Mais três santistas na Paulicéia... hehe.

Mas eu ainda estou com uma angústia aqui dentro do peito, que não se dissipa. Em parte por antecipar fatos... sofro sempre por antecipação, não tem jeito. Mas sobretudo é medo, e cansaço. Medo do que veio e ainda vem. Cansaço de não conseguir agir da forma que gostaria sempre, de me policiar para não fazer errado, de pecar por negligência às vezes, ou por excesso. Problemas de quem não tem meio termo...

Mas não, não se preocupem comigo, estou muito bem. Está tudo certo aqui, gosto do meu trabalho, me divirto apesar de "algumas" pesares. Não há de ser nada, tratar com pessoas é mesmo difícil, e conto com a minha intuição para me avisar. E ela já apitou, então estou alerta.

Termino com um poeminha, voltei a lê-los. Como estou angustiada, aí vai meu escritor preferido nestes momentos: Álvaro de Campos, "Não":

Não: devagar.
Devagar, porque não sei
Onde quero ir.
Há entre mim e os meus passos
Uma divergência instintiva.
Há entre quem sou e estou
Uma diferença de verbo
Que corresponde à realidade.

Devagar...
Sim, devagar...
Quero pensar no que quer dizer
Este devagar...
Talvez o mundo exterior tenha pressa demais.
Talvez a alma vulgar queira chegar mais cedo.
Talvez a impressão dos momentos seja muito próxima...
Talvez isso tudo...

Mas o que me preocupa é esta palavra devagar...
O que é que tem que ser devagar?
Se calhar é o universo...
A verdade manda Deus que se diga.
Mas ouviu alguém isso a Deus?

quinta-feira, 3 de setembro de 2009

Saia de mim a verdade

Sabe o que é olhar para um fundo branco, querer dizer um monte de coisas e nem saber como começar? Sabe o que é se sentir uma pessoa ruim, ruim de verdade, que não merece uma migalha sequer de qualquer coisa? E sabe o que é se sentir meio culpada por algo que você não fez de propósito, e que isso ajudou a causar um abismo?

Se não sabe, saiba que a ignorância é uma bênção. Mas eu prefiro saber. Prefiro ter a experiência, prefiro sinceramente. Nem que pra isso eu precise passar por algum tipo de crise... afinal, passo por tantas mesmo, mais uma, menos uma...

Estava bem, até pensando de forma positiva em algumas coisas imutáveis. Mas algo me fez voltar ao “Seria o Rolex”. Sei o que foi, mas não foi só isso. Tem muitas coisas que eu gostaria de não ter em mim, de não ter feito aos outros, e principalmente de não deixar que os outros fizessem a mim. Sou facilmente atingível, e isso me irrita! Muito!

Eu só sei que não me arrependo dos meus deslizes, só me entristeço com o que eles ocasionaram e ainda podem ocasionar. Não queria ser um agente da erosão que ajudou a desenhar uma espécie de cânion... Não desejei que nenhum dos meus erros machucassem outros. I never meant to hurt...

Nunca mais irei deixar de agir da forma que acho melhor por conta das outras pessoas. A não ser em casos extremos. Várias mudanças se operaram em mim, lembram? Essa é uma delas. Não me importa mais se acham que está tudo indo pelo caminho errado. Aprendi a muito custo que minha intuição é a melhor guia... mas mesmo ela precisa de mapas.

Ainda não deixei de me mirar em exemplos próximos. Mas tento entender que nem sempre o que é certo e acabado para alguém também o é para mim. Na maioria das vezes não é.

Tenho medos novos, claro, afinal minha vida está quase toda nova. Medos que vem de noite, do nada, batem à minha consciência e me confundem. Do mesmo jeito que vem, vão. Os medos antigos estão também fortes, mas deles eu sei cuidar...

Não sei quanto tempo algumas coisas vão durar. Por isso, insisto em aproveitar sempre, mesmo sendo chata por isso. Não me importa; se não incomodar demais, continuo.

Desculpem, dessa vez não vou me explicar. Vou tomar emprestado o estilo de um amigo, ou dois, e deixar tudo bem no ar. Entenda quem entender... se não entende, não sabe, lembre-se: a ignorância é uma bênção!

Pra terminar, quero que vocês entendam essas linhas acima mais ou menos da forma que as aqui debaixo são descritas: trecho de “O sim contra o sim”, João Cabral de Melo Neto.

Marianne Moore*, em vez de lápis,
emprega quando escreve
instrumento cortante:
bisturi, simples canivete.

Ela aprendeu que o lado claro
das coisas é o anverso
e por isso as disseca:
para ler textos mais corretos.

Com a mão direita ela as penetra
com lápis bisturi,
e com eles compõe,
de volta, o verso cicatriz.

E porque é limpa a cicatriz
econômica, reta,
mais que o cirurgião
se admira a lâmina que opera.”

*Marianne Moore é uma poetisa americana