segunda-feira, 12 de maio de 2014

Cores


"Ela sempre gostou de escarlate, mesmo quando não sabia o que era esse escarlate ainda. Mas diziam pra ela que o certo seria gostar de fúcsia, ou talvez de cores áureas. Ela até podia achar escarlate legal, bonito, mas não era pra ela. Essa cor era destinada àquelas estranhas, sabe? Esquisitonas e revoltadas por nada.

- Não seja escarlate, isso é radical demais. Escarlate não combina bem com anil, querida. Você quer viver sem completar sua paleta de cores? Seja colorida, não colorista.

As mesmas pessoas que eram contra a sua porção escarlate também não gostavam do arco-íris, do nanquim, dos tons gris, do translúcido. Achavam que cada cor tinha que ter seu par determinado e que sair disso era ruim. Não que eles fossem contra, claro, até pintavam com outras cores. Mas cada tom correspondia à sua paleta.

- Sempre foi assim no mundo, é o certo. E mesmo que não seja, você não vai c
onseguir mudar. Você e essas ideias impressionistas, veja se pode!

Ela passou (ainda passa) por isso, porém resolveu que ia ser escarlate e pronto. Que era uma escolha dela - essa cor ela podia escolher. E que ela ia lutar por ela e pelas outras que odeiam escarlate por terem nascido numa sociedade em que o anil e o branco são mais fortes e têm mais direitos. Não importa que essas outras a olhem e tratem como mais uma esquisitona impressionista e colorista. Ou colornazi intolerante.

Ela queria só que todo mundo pudesse usar sua paleta como quisesse. Quem ninguém fosse obrigado a gostar/ser de determinado tom só porque o mundo acha que ele é melhor, é o certo. Ela sente medo pelas pessoas que são de cores ainda mais marginalizadas. A cor dela é uma escolha, e já dá problemas. Imagina as pessoas que não são de determinada cor por escolha? Que nasceram "da cor errada"? Que são vistas como querendo "aparecer" quando tem a coragem de gritar pro mundo que são de cores "diferentes"? E ela se enfurece ao ver alguém marginalizar e maltratar cores tão lindas... ou dizer que nanquim vale menos. Que translúcido e gris não são nem cores.

Ela também gostaria de pintar livremente, sem que algum anil passasse e lhe gritasse alguma coisa porque ela é escarlate. E ela sabe que as fúcsias também passam por isso, e também se sentem mal, e também não merecem. Ela gostaria de viver sem medo que algum cerúleo lhe jogasse em um canto qualquer e lhe empurrassem sua cores à força. Ou mesmo um lápis lazúli conhecido se aproveitasse de algum momento de fraqueza para forçar seus tons. E queria respeito às outras cores, todas elas.

Ela conheceu outras escarlates e se espantou com os diversos tons. Não há um só escarlate, e que bom! Ela mudou aos poucos e, apesar de não se reconhecer em alguns dos tons, não vê nada errado em todos eles. Só não aceita mais preconceitos dentre escarlates e contra translúcidas e gris, por exemplo.

Alguns dias, ela tem vontade de desistir, de não tentar, de não mostrar que outras pinturas são tão corretas quanto as ditas "normais", que o escarlate é tão lindo quanto o fúcsia, que todas as cores têm seu espaço e devem ser respeitadas e que as cores marginalizadas merecem equidade. Porque isso cansa. Cansa muito. Tira seu tempo de pintura, de estudar impressionismo, expressionismo, de observar as cores do mundo. Dá vontade de desistir.

Ela pensa em desistir - mas resiste. Um dia, quem sabe, ela não precisará mais brigar. Até lá, segue fazendo arte. Por e com todas as paletas."

quarta-feira, 7 de maio de 2014

Empatia.

O que falta no mundo é empatia. Estou certa que quase todos os problemas seriam resolvidos com empatia real. Mas, pra contar e comentar isso da forma que eu quero, vou começar com uma historinha. Eu vou chegar em uma conclusão com isso, prometo!

Em 2011, eu estava numa fase ruim e não ruim. Ruim porque tinha me mudado pra São Paulo há 1 ano e não tinha me adaptado direito, não tinha feito amigos aqui, me sentia terrivelmente sozinha e chorava todo domingo quando subia a serra pra trabalhar num emprego que pagava mal. E não ruim porque foi o ano que eu comecei na Letras, depois de passar 2010 estudando mal e porcamente. Estava meio negativa e tudo tava dando errado. Tudo é exagero - eram pequenas coisas que estavam dando errado e me atrapalhavam no cotidiano.

Aí eu fui assaltada, saindo da USP, de manhã, cerca de 11h, quando estava indo pro trabalho. Assaltada por cinco meninas em cima da Ponte Cidade Universitária. Já falei disso aqui, se quiserem ler. Não aconteceu nada muito sério, só o trauma que ficou pra sempre (toda vez que eu vejo alguém andando na minha direção quando eu tô sozinha eu acho que é assalto, não importa quem seja, homem ou mulher).

Nesse dia, um amigo me falou algo que me deu uma sacudida - disse que eu estava reclamando de tudo que dava errado, o tempo todo. Eu deveria mudar minha postura. Foi um momento complicado pra ele falar isso, e ele falou com jeito, não foi bruto. Mas falou. E aqui meio que deu um estalo em mim. Isso, claro, além da sacudida do assalto.

Eu comecei a exercitar isso de não ficar reclamando de tudo o tempo todo. Não é fácil. Eu ainda exercito isso, tento reclamar rindo, fazendo piada. Eu decidi que ia mudar isso em mim, e eu sou teimosa, então, se decidi, tá decidido, hehe.

Coincidência ou não, nesses cerca de três anos eu mudei em vários aspectos relacionados a isso. Ao parar de dar tanto peso às minha reclamações, eu comecei a olhar com mais paciência pras reclamações e problemas dos outros. Eu sempre me considerei empática, acho mesmo que sempre fui. Porém, isso tomou outra proporção. Minha militância (ou ativismo) mudou. Eu me envolvi mais nas questões que me interessavam e não diziam respeito só a mim. Aprendi e ainda aprendo, e espero mesmo estar evoluindo.

Isso se deu só porque eu resolvi não reclamar tanto? Não. Não vou ficar nessa de "seja positivo e o mundo será melhor", porque isso seria só tolo. O mundo não ficou melhor, a minha postura é que mudou. Eu me tornei (e busco me tornar) cada vez mais empática. Naquele dia mesmo, do assalto - quando eu cheguei em casa, não estava com raiva. Medo, sim, não raiva. Eu pensei nas minhas assaltantes e no ponto a que chega uma pessoa, se submeter a assaltar alguém, qualquer que seja o motivo, se pra comer ou pra comprar um iphone.

Não vou dizer também que sou assim todo dia - tem vários dias em que eu xingo o motorista que não abriu a porta do ônibus ao me ver correndo e saiu do ponto sem me esperar.

No entanto, acredito piamente que se a gente se colocasse no lugar dos outros, quase não haveria problemas e discussões. Crimes de intolerância iriam desaparecer. Porque o que eu vejo é uma onda de intolerância cada vez maior. De pessoas que não se importam com o que o outro sofre, porque, afinal, elas sofrem também com várias coisas. Se eu não me importo com o que o outro sofre, não vou ajudar e não me sentirei mal em atrapalhar.

Tá parecendo pregação, eu sei; mas não é, até porque as religiões agem como concorrentes o tempo todo. E eu não sou adepta de nenhuma.

Eu conversei com dois amigos sobre isso nessas últimas semanas. E a gente chegou no mesmo ponto final - a chave é a empatia. Informação também, mas empatia, sobretudo. Porque só com empatia a gente vai atrás de informações sobre os males dos outros.

Sei lá, não quero posar aqui de moralista. Só acho que, no momento em que a gente parar de dar tanto valor aos contratempos do dia a dia e passar a se importar de verdade com a dor dos outros, muita coisa vai mudar. Intolerância tem matado muito nos últimos tempos. Piadas e opiniões contra pessoas só aumentam, e isso machuca tanto quanto porradas, se não mais. Eu vejo, todos os dias, pessoas sofrendo discriminação, gritando que aquilo dói nelas, e os discriminadores dizendo que não dói, que é exagero. Isso porque eles são incapazes de parar um minuto e pensar: "Pera, será que isso não dói mesmo? Se fosse comigo, doeria?".

Antes de falar de algo, de comentar, de escrever, de postar, de comunicar, se todos nós pensássemos "Isso doeria se fosse contra mim?", o mundo não estaria como está. Não me parece uma conclusão difícil. Parece?