- Não seja escarlate, isso é radical demais. Escarlate não combina bem com anil, querida. Você quer viver sem completar sua paleta de cores? Seja colorida, não colorista.
As mesmas pessoas que eram contra a sua porção escarlate também não gostavam do arco-íris, do nanquim, dos tons gris, do translúcido. Achavam que cada cor tinha que ter seu par determinado e que sair disso era ruim. Não que eles fossem contra, claro, até pintavam com outras cores. Mas cada tom correspondia à sua paleta.
- Sempre foi assim no mundo, é o certo. E mesmo que não seja, você não vai conseguir mudar. Você e essas ideias impressionistas, veja se pode!
Ela passou (ainda passa) por isso, porém resolveu que ia ser escarlate e pronto. Que era uma escolha dela - essa cor ela podia escolher. E que ela ia lutar por ela e pelas outras que odeiam escarlate por terem nascido numa sociedade em que o anil e o branco são mais fortes e têm mais direitos. Não importa que essas outras a olhem e tratem como mais uma esquisitona impressionista e colorista. Ou colornazi intolerante.
Ela queria só que todo mundo pudesse usar sua paleta como quisesse. Quem ninguém fosse obrigado a gostar/ser de determinado tom só porque o mundo acha que ele é melhor, é o certo. Ela sente medo pelas pessoas que são de cores ainda mais marginalizadas. A cor dela é uma escolha, e já dá problemas. Imagina as pessoas que não são de determinada cor por escolha? Que nasceram "da cor errada"? Que são vistas como querendo "aparecer" quando tem a coragem de gritar pro mundo que são de cores "diferentes"? E ela se enfurece ao ver alguém marginalizar e maltratar cores tão lindas... ou dizer que nanquim vale menos. Que translúcido e gris não são nem cores.
Ela também gostaria de pintar livremente, sem que algum anil passasse e lhe gritasse alguma coisa porque ela é escarlate. E ela sabe que as fúcsias também passam por isso, e também se sentem mal, e também não merecem. Ela gostaria de viver sem medo que algum cerúleo lhe jogasse em um canto qualquer e lhe empurrassem sua cores à força. Ou mesmo um lápis lazúli conhecido se aproveitasse de algum momento de fraqueza para forçar seus tons. E queria respeito às outras cores, todas elas.
Ela conheceu outras escarlates e se espantou com os diversos tons. Não há um só escarlate, e que bom! Ela mudou aos poucos e, apesar de não se reconhecer em alguns dos tons, não vê nada errado em todos eles. Só não aceita mais preconceitos dentre escarlates e contra translúcidas e gris, por exemplo.
Alguns dias, ela tem vontade de desistir, de não tentar, de não mostrar que outras pinturas são tão corretas quanto as ditas "normais", que o escarlate é tão lindo quanto o fúcsia, que todas as cores têm seu espaço e devem ser respeitadas e que as cores marginalizadas merecem equidade. Porque isso cansa. Cansa muito. Tira seu tempo de pintura, de estudar impressionismo, expressionismo, de observar as cores do mundo. Dá vontade de desistir.
Ela pensa em desistir - mas resiste. Um dia, quem sabe, ela não precisará mais brigar. Até lá, segue fazendo arte. Por e com todas as paletas."



