sexta-feira, 16 de agosto de 2013

Alguns pensamentos sobre São Paulo durante o trânsito

Tirando um pouco o pó do blog, vou escrever uma conversa minha comigo mesma, hehe. Afinal, como eu não posso ler em movimento por causa da labirintite, ou eu ouço música ou eu converso comigo. Ou os dois. A última conversa mais longa foi pensando em duas músicas que são simbólicas: "Sampa", do Caetano Veloso, e "Não existe amor em SP", do Criolo.

Eu cheguei a uma divisão sobre as duas letras - acho que elas identificam dois tipos de "estrangeiros" em São Paulo: os que chegam aqui pensando que só encontrarão uma selva de pedra cinzenta e sem muita graça, lugar pra talvez ganhar a vida e só. E acabam descobrindo a "poesia concreta de suas esquinas". E os que chegam maravilhados, admirando a cidade com um buquê, pra se dar conta, depois de um tempo, que "buquês são flores mortas num lindo arranjo".

Sem tecer considerações sobre qual dos tipos de estrangeiros é melhor, ou mais feliz, declaro que eu pertenço ao segundo grupo. Sempre passeei por aqui, antes de morar, porque gosto da cidade. Gosto, assim mesmo, no presente. Olho para ela e não vejo exatamente meu rosto, mas sim uma fragmentação de rostos tão bonita, diversa, múltipla, plural, que me encanta.

Ouso fazer uma leitura da música do Criolo - quando ele fala que "não existe amor em SP", eu não vejo uma reclamação romântica, de falta de amor dos paulistanos. Existem as pessoas e existe o sentimento nelas, claro. Acredito que o que ele quer dizer é não existe amor nascido da cidade de São Paulo. Nós, estrangeiros, sentimos bem isso. A cidade nos acolhe, as pessoas nos acolhem e nos amam; nós nos apaixonamos e amamos SP. Mas SP não é uma boa adepta do poliamor, e não nos ama de volta. Somos como a visita, que SP aceita, trata bem, simpatiza, mas não ama. São muitos filhos, são muitos agregados, muitos estrangeiros. É tudo em grande número: congestionamentos, usuários de transporte público, protestos, problemas, vidas, bares, namoros, términos, shoppings, mendigos, dinheiro, pobreza. Tudo excessivo. E o amor talvez não consiga caber ali, em meio a tantos "íssimos" e superlativos.

A letra (linda) do Caetano diz que, se viemos de um sonho feliz de cidade, passamos a chamá-la de realidade "porque és o avesso do avesso do avesso do avesso". Quatro avessos dão um lado certo da roupa. E eu acho que é isso mesmo - é tanto avesso que chega num ponto certo, comum. Talvez um pouco amassado, depois dos desavessos.

Não vou desmerecer nunca essa letra, porque quando ando no centro alguma coisa acontece no meu coração. E hoje, quando andava na garoa, pensava em como, mesmo com tudo, eu gosto daqui. Aqui eu me recuperei da minha falência amorosa, aqui eu reencontrei o amor há menos de um ano, aqui eu estou fazendo um novo caminho, estudando, trabalhando, vivendo.

Entretanto, a música que eu elejo como tema é o rap (quer coisa mais paulistana?) do Criolo, outro estrangeiro na metrópole:

"Não existe amor em SP
Um labirinto místico
Onde os grafites gritam
Não dá pra descrever
Numa linda frase
De um postal tão doce
Cuidado com doce
São Paulo é um buquê
Buquês são flores mortas
Num lindo arranjo
Arranjo lindo feito pra você

Não existe amor em SP
Os bares estão cheios de almas tão vazias
A ganância vibra, a vaidade excita
Devolva minha vida e morra afogada em seu próprio mar de fel
Aqui ninguém vai pro céu

Não precisa morrer pra ver Deus
Não precisa sofrer pra saber o que é melhor pra você
Encontro duas nuvens em cada escombro, em cada esquina
Me dê um gole de vida
Não precisa morrer pra ver Deus"

sexta-feira, 24 de maio de 2013

O mundo real é um lugar estranho

Primeiro, deixa eu explicar o que eu estou chamando de mundo real. Eu não tenho vivido nele. Acordo, vou pro trabalho (na USP), vou pra aula (na USP), volto pra casa. Converso com meus amigos, da turma aqui de SP. Converso com o namorado. Leio postagens, matérias, facebooks. Leio livros, discuto livros com amigos. Discuto idéias e ideais. Mas convivo, quase o tempo todo, com pessoas de mente aberta - pessoas que não acham estranho poliamor, mesmo que não o pratiquem; pessoas que entendem que preconceitos não fazem muito sentido; que não querer o casamento civil gay não faz o menor sentido; que o feminismo não é um movimento formado para odiar homens; e que uma mulher tem o direito de andar como quiser, e ficar com quem quiser, quantas vezes quiser, sem ser taxada de vagabunda.

Mas esse não é o mundo real. No mundo real, os preconceitos estão a todo vapor. E as pessoas nem mesmo percebem, de tão enraizados. No mundo real eu ouço conversas que dizem que as mulheres de hoje não se dão valor, e depois querem que os homens as levem a sério. Escuto que não existe essa de privilégios, e sim direitos respeitados. Vejo compartilharem vídeos e notícias pichando auxílios como o bolsa família e as cotas (também não penso que esses auxílios sejam a solução, nem os defendo ferrenhamente, mas no mundo real as pessoas não veem, ou fingem não ver, que apesar de tudo eles ajudam)

No mundo real, pessoas falam de baixar a maioridade penal como se essa fosse a solução suprema para os crimes feitos por menores. Fala-se que "bandido bom é bandido morto", e apoia-se os atos desmedidos da polícia. As pessoas desse mundo tem saudade da ditadura, e pensam que essa história de Comissão da Verdade tinha que punir era os guerrilheiros, e não os pobres velhinhos, que estavam só salvando o Brasil do comunismo.

No mundo real, as pessoas querem morar nos EUA, porque lá sim é país de 1º mundo. Essas pessoas querem comprar cada vez mais carros, acham um abuso ter que respeitar rodízio, e então compram um carro só pra esse dia. Vão de carro pro trabalho, e reclamam diariamente dos engarrafamentos.

Eles querem a marcha do orgulho hétero, dizem que hoje em dia há perseguição contra religiosos, e que é uma pouca vergonha ver dois homens se beijando na rua. Odeiam quem se manifesta, sobretudo se quem se manifesta faz faculdade, especialmente se for pública. Pensam que é tudo um bando de vagabundo maconheiro, que deveria estar estudando.

O mundo real trata futebol como problema sério, pra depois reclamar que brasileiro só pensa em futebol e carnaval, e não se importa com a corrupção. O mundo real fala mal da Angelina Jolie porque ela fez uma cirurgia para salvar a própria vida. O mundo real lê a Veja, e acredita. Vê os telejornais e acredita. É fã do Datena.

As pessoas do mundo real querem usar camisetas com "100% branco" escrito, e não veem nada de errado nisso. No mundo real, se uma mulher é estuprada, a culpa é dela - porque tava bêbada, de roupa curta, se insinuou. No mundo real, as mulheres não acham errado um homem pagar tudo, porque é dever deles.

No mundo real, pessoas morrem por causa de intolerância, crimes de gênero. Mas se quisermos fazer leis pra impedir isso, estamos indo contra a Constituição - aquela que diz que todos temos direito à vida. O mundo real quer tirar direitos de mulheres que foram estupradas / correm risco de vida / vão ter fetos anencéfalos em nome dos diretos de algumas células. E eles querem matar todos os drogados, ou prendê-los bem longe.

Eu poderia continuar aqui por horas com essa lista, mas acho que já me fiz entender.

E a conclusão que eu chego é: não sei mais viver no mundo real.

sexta-feira, 26 de abril de 2013

Tens tempo?

Quase um mês depois venho falar do meu aniversário. Acho que ainda estou me recuperando dele. Ele foi... diferente. De formas boas e ruins. E as ruins ainda me incomodam, mas vai passar.

Minha vida... umas reviralvoltas aqui e ali. Passei por cirurgia no olho, por causa de um ters(ç)ol mal curado. Recebi ajudas, alguns amigos pensaram em se unir pra pagar a cirurgia pra mim, o que não foi necessário. Esse é o tipo de coisa que não tem preço, gente. E que eu fico envergonhada demaaaais. Brigadinha =).

Outra pessoa me ajudou apresentando uma médica, que por sua vez me ajudou também. É por isso que eu digo sempre que eu sou uma pessoa protegida - nos momentos que eu preciso demais, tem sempre quem me ajude. Meu santo é forte, hehe.

Ao mesmo tempo que ganho, estou perdendo. Na verdade, eu sabia que ia perder, era um tanto inevitável. Porém, quando a derrota tá ali, olhando pra você, é terrível, né? Quando você sabe que a história não será contada por você, porque você não é o vencedor. Dói, e não vou enganar, dói muito. Te faz tomar decisões idiotas, pra negar as derrotas. E essas decisões te fazem apanhar, levar na cara mesmo, cinco dedos desenhado em vermelho. Tá tudo bem, um dia eu aprendo. Afinal, quer eu queira quer não, eu sou a vilã. Alguns veem assim (duas pessoas, pelos menos, eu tenho certeza).

A vontade de não ser injusta é grande. O medo de ser injusta é enorme. Mas o fato é que em São Paulo tinha pelos menos umas 30 pessoas no meu aniversário; em Santos tinha 8. E eu passei a meia noite de 30 para 31 de março com duas pessoas, amigas de muito muito tempo, e o mar. E se não fosse por elas, teria passado sozinha. Cenário totalmente contrário ao do ano passado.

É assim que as coisas estão. E meu coração tá apertado, apertado, mais apertado que buraco de agulha.

"Eu que já não sou assim
Muito de ganhar
Junto às mãos ao meu redor
Faço o melhor que sou capaz
Só pra viver em paz"

domingo, 17 de fevereiro de 2013

O dia em que eu saí do cinema chorando sem parar

Faz um tempo que não falo aqui de filmes. E olha que eu vi filmes muuuuito bons nesse tempo. Mas teve um que não me deixou não falar dele. Ele tá aqui, na minha cabeça, na trilha sonora que eu baixei e tô ouvindo nesse instante, no meu coração.

O filme é "Os Miseráveis". Acabou comigo. Eu nunca chorei tanto num filme, nem quando era católica e vi "A Paixão de Cristo" do Mel Gibson (sim, chorei demais naquele filme). A história eu já sabia que era fantástica, e tava muito ansiosa pra vê-la na telona. Tentei ver umas 3 vezes antes de conseguir. E não me arrependi.

Nenhum filme nunca me tocou tão fundo. E não é essa a função das artes, te tocar de uma forma inédita, ou profunda, ou os dois? As personagens, o clima de ópera, a emoção de tantos momentos. A música da Anne Hathaway... aliás, o que é a Anne nesse filme? Meu Deus, ela tá... eu não sei que palavra escolher. Espetacular? Perfeita?

Eu consigo facilmente ficar imersa no filme. E fiquei totalmente imersa. Não conversei com os meus dois amigos que foram junto, não desviava minha atenção da tela. Les Misérables me capturou de tal forma que eu me irritei com o rapaz que tava sentado do meu lado esquerdo com a namorada, e fiz um "shhh" pra ele, mesmo ele não tendo falado tanto. Eu não queria que nada me desviasse do que eu tava vendo e sentindo.

Gostei muito das personagens secundárias, os atores fizeram muito bem seus papéis. Destaque para a Eponine (Samantha Barks) e o garotinho esperto, Gavroche (Daniel Huttlestone) com vivência de gente grande. Além do alívio cômico, com o Sasha Baron Cohen e a Helena Boham Carter, que estão geniais.

Só tenho a dizer que, se você não assistiu ainda, assista. e leve lencinhos, porque é bem provável que você chore. Eu fui com dois meninos, e os dois choraram. E eu não sou a pessoa que mais chora em filmes no mundo - no geral, caem uma ou duas lágrimas dos meus olhos e é isso. Dessa vez eu soluçei. As luzes acenderam e eu não parava de chorar. Fiquei olhando pra tela e repetindo "Fantástico! Fantástico!". Levantei e saí repetindo isso, e chorando. Só parei já fora do cinema. Foi catártico.

Os Miseráveis pode ser cansativo pra quem não gosta de musicais, porque é longo e tem apenas umas cinco falas não cantadas. Ele não é absurdamente fiel ao livro, mas é uma boa adaptação - não muda demais o rumo da história. E o fato de eu ter gostado tanto não garante que você ache ele ótimo, hahaha.

Mas esse filme pulou diretamente para a posição de meu preferido. E eu vou ver de novo no cinema, e quando sair em dvd vou comprar pra ficar revendo quando der vontade. Sim, eu vou comprar, não só baixar. Porque ele merece ser comprado.

Só espero não desidratar até a morte =P. E haja lencinho de papel.

quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

(Re) Construção

"Acho que estou cética demais. hahahahha
Quando é que a gente se cura disso? Quando é que a gente sabe que é pra sempre? Ou a gente nunca saberá?"

"Pode parar com o ceticismo.
Pode continuar assim com outras coisas do mundo, mas não com isso.
Não se sabe quando é pra valer até BAM você saber. Isso é que é bom."

"... Uhum. imagino que sim.
Mas vc sabe como é não saber."

"Ô se sei. Normal."


Estou muito melhor. A vida segue, novos sentimentos surgem, novas pessoas... ou as mesmas de algum tempo. Vida se estruturando.

E, ao mesmo tempo, olho pro meu futuro e vejo incógnitas. Vejo os tais X e Y das equações, mas sem fórmula de Bháskara pra ajudar a resolver.

Estou feliz. E isso dá medo. Porque eu não sei mais até quando. Não sei mais a duração das coisas. Não tenho mais as ideias de infinito que eu tinha.

Temo que o "pra sempre" não seja pra todo mundo, só pra quem tem sorte.

No final de semana acompanhei de perto um casal com essa sorte. Fui madrinha de casamento do meu irmãozinho escolhido a dedo, Thiago. E me vi feliz como há muito tempo não me via. E o melhor - tava feliz por outras pessoas. Gosto de ver que sou capaz disso, hehe, apesar de todos os meus egoísmos e defeitos.

Gosto de casamentos, dessa prova de que há quem acredite no futuro, no amor, no companheirismo, nessas coisinhas boas que a gente sente. Choro que nem criança, ainda mais se são pessoas que eu amo. E eram pessoas que eu amo.

Bem... ainda estou cética com o mundo, mas sou uma romântica incorrigível. Até consigo ver uma luzinha se aproximando nesse futuro incerto. E não, não acho que seja um trem =P

segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

Não tenho um título bom pra esse post.

Tenho medo de ser injusta. Mas quero escrever, então escreverei.

Estive triste. É uma tristeza que eu já esperava.... mas quando ela veio, foi chato.

No sábado, dia 05, eu chorei, pela primeira vez no ano. Bem, o ano acabou de começar. Eu só não esperava que as coisas viessem nessa velocidade.

Minha virada de ano foi boa, sim. Primeira vez que eu passei a meia noite que nos traz ano novo longe da minha mãe, do pessoal de casa. Fiz isso porque precisava fazer diferente. Minha vida mudou, tudo mudou. É o preço que eu pago pelas minhas decisões. Mas foi difícil receber o telefonema, o primeiro do ano, e ouvir minha tia dizendo que eu estraguei as coisas, que tava todo mundo triste por minha causa. Foi bastante difícil ouvir a voz tristinha da minha mãe e do meu pai. Meus irmãos sentiram minha falta, mas entenderam melhor. Acontece que eu não queria causar mais tristeza. Eu só precisava fazer algo pra não ficar chorando sozinha em casa, em Santos. Porque era isso que ia acontecer, depois que todo mundo voltasse da praia.

Me senti uma estranha nesse final de semana. Uma daquelas pessoas que você conhece de vista, é educado, até conversa, mas nada além disso. E foram amigos de 8 anos que me fizeram sentir isso. E eu tô sendo injusta... não foi intencional, eu sei que não. Porém, foi exatamente isso que eu senti.

Desci a serra pra ver minha família e amigos. Vi minha família, falei com a minha mãe e meu pai, expliquei, entre lágrimas, pra minha mãe porque eu não queria passar o ano novo em Santos esse ano. Acho que, ao ver minhas lágrimas, ouvir minhas razões, ela entendeu.

Não vi meus amigos. Não sei quantos deles vou manter. Não, eles não me tratam mal, eles falam comigo, eles gostam de mim. Mas o normal é que, por eu não estar na cidade sempre, as distâncias aumentem. E agora não só geograficamente.

Não vou fazer nada. Nem sei o que fazer.

E a minha vida em São Paulo tem se estruturado. e eu não sei se tenho direito de reclamar, sabe? Porque meus problemas são pequenos. Não são as coisas mais graves do mundo. Só são meus problemas.

E quem sou eu pra ficar triste?

Acho que ainda tô meio perdida.



Who, who am I to be blue
Look at my family and fortune?
Look at my friends and my house?

Who, who am I to feel dead?
And, who am I to feel spent
Look at my health and my money?

And where, where do I go to feel good?
Why do I still look outside me
When clearly I've seen it won't work?

Is it my calling to keep on when I'm unable?
Is it my job to be selfless extraordinaire?
And my generosity has me disabled by this
My sense of duty to offer

And why, why do I feel so ungrateful?
Me, who is far beyond survival
Me, who's seen life as an oyster

Is it my calling to keep on when I'm unable?
Is it my job to be selfless extraordinaire?
And my generousity has me disabled by this
My sense of duty to offer

And how, how dare I rest on my laurels?
How dare I ignore an outstretched hand?
How dare I ignore a third world country?

Is it my calling to keep on when I'm unable?
Is it my job to be selfless extraordinaire?
And my generousity has me disabled by this
My sense of duty to offer

Who, who am I to be blue?