Esta semana não estava com a menor vontade de subir. Sim, desço toda semana, e vou continuar descendo, é extremamente necessário para a minha sanidade mental. Vez ou outro pode ser que fique por aqui, talvez desça apenas no sábado de manhã, mas não vou deixar de descer.
Não entendo quem veio pra cá e se acostumou a não descer. Não quero impor meu certo e errado, só não entendo. Se eu ficasse aqui em cima sempre ia enlouquecer rapidinho.
Domingo, dia de subir, tava com uma sensação estranha no final da tarde. Entrei no ônibus, senti um peso, fiquei mais estranha. Quando, já na serra, olhei pela janela e vi as luzes de Santos se afastando, me bateu uma tristeza, um aperto no peito... as luzes ofuscaram meus olhos, e eu não contive as lágrimas.
Não estou aqui para reclamar do meu trabalho, motivo maior pelo qual eu subo toda semana. Não reclamo porque me divirto com o que faço, com as pessoas, e porque, se eu comparar com quase todos os meus empregos anteriores, esse ganha de longe. Também não vim reclamar de São Paulo, cidade que eu continuo a gostar, como já disse mais de uma vez. É só uma angústia vinda muitas vezes do nada, um desconforto, uma saudade antecipada.
E meu problema não é nem só saudade de Santos. Digo mais: ando me sentindo de lugar nenhum, desencaixada.
É como um trecho do poema que vou colocar aqui embaixo: me sinto como o Álvaro, ao volante do Chevrolet pela estrada de Sintra (no caso, Sampa), deixando Lisboa (no caso, Santos) por não poder ficar lá, e com a certeza de quando chegar a Sintra terá pena de não ter ficado em Lisboa.
Sempre que fico assim, procuro o motivador da crise, e dessa vez não foi diferente. Procurei, procurei, e parece que o motivo foi justamente algo muito, muito bom que aconteceu semana passada: fiz 6 anos de namoro na ultima terça-feira, dia 13 de abril. SEIS anos! Há seis anos conhecia o Bruno, aos poucos me apaixonava, aos poucos me acostumava com ele sempre ali do lado, o tempo todo que eu precisasse. Aos poucos ia passando pela faculdade, algumas vezes ajudando, outras vezes ajudada por ele também. Saudade disso. Falta.
Mas não foi o peso do tempo, ou necessariamente da distância apenas. É mais por não saber como será daqui pra frente, e querer não querendo que as coisas voltassem ao que eram a 1 ano. Querer não querendo. Dualidades da vida.
Una-se isso a todos os meus receios, tudo o que eu sinto de angústia normalmente, e o resultado foi a cena descrita acima.
Estou melhor, mas o medo de inúmeras coisas ainda está aqui. Ah, que raiva de não poder trazer o passado na algibeira...
Não lembro se já o coloquei aqui, talvez sim, mas aí vai:
Ao volante do Chevrolet pela estrada de Sintra - Álvaro de Campos
Ao volante do Chevrolet pela estrada de Sintra,
Ao luar e ao sonho, na estrada deserta,
Sozinho guio, guio quase devagar, e um pouco
Me parece, ou me forço um pouco para que me pareça,
Que sigo por outra estrada, por outro sonho, por outro mundo,
Que sigo sem haver Lisboa deixada ou Sintra a que ir ter,
Que sigo, e que mais haverá em seguir senão não parar mas seguir?
Vou passar a noite a Sintra por não poder passá-la em Lisboa,
Mas, quando chegar a Sintra, terei pena de não ter ficado em Lisboa.
Sempre esta inquietação sem propósito, sem nexo, sem conseqüência,
Sempre, sempre, sempre,
Esta angústia excessiva do espírito por coisa nenhuma,
Na estrada de Sintra, ou na estrada do sonho, ou na estrada da vida...
Maleável aos meus movimentos subconscientes do volante,
Galga sob mim comigo o automóvel que me emprestaram.
Sorrio do símbolo, ao pensar nele, e ao virar à direita.
Em quantas coisas que me emprestaram eu sigo no mundo
Quantas coisas que me emprestaram guio como minhas!
Quanto me emprestaram, ai de mim!, eu próprio sou!
À esquerda o casebre — sim, o casebre — à beira da estrada
À direita o campo aberto, com a lua ao longe.
O automóvel, que parecia há pouco dar-me liberdade,
É agora uma coisa onde estou fechado
Que só posso conduzir se nele estiver fechado,
Que só domino se me incluir nele, se ele me incluir a mim.
À esquerda lá para trás o casebre modesto, mais que modesto.
A vida ali deve ser feliz, só porque não é a minha.
Se alguém me viu da janela do casebre, sonhará: Aquele é que é feliz.
Talvez à criança espreitando pelos vidros da janela do andar que está em cima
Fiquei (com o automóvel emprestado) como um sonho, uma fada real.
Talvez à rapariga que olhou, ouvindo o motor, pela janela da cozinha
No pavimento térreo,
Sou qualquer coisa do príncipe de todo o coração de rapariga,
E ela me olhará de esguelha, pelos vidros, até à curva em que me perdi.
Deixarei sonhos atrás de mim, ou é o automóvel que os deixa?
Eu, guiador do automóvel emprestado, ou o automóvel emprestado que eu guio?
Na estrada de Sintra ao luar, na tristeza, ante os campos e a noite,
Guiando o Chevrolet emprestado desconsoladamente,
Perco-me na estrada futura, sumo-me na distância que alcanço,
E, num desejo terrível, súbido, violento, inconcebível,
Acelero...
Mas o meu coração ficou no monte de pedras, de que me desviei ao vê-lo sem vê-lo,
À porta do casebre,
O meu coração vazio,
O meu coração insatisfeito,
O meu coração mais humano do que eu, mais exato que a vida.
Na estrada de Sintra, perto da meia-noite, ao luar, ao votante,
Na estrada de Sintra, que cansaço da própria imaginação,
Na estrada de Sintra, cada vez mais perto de Sintra,
Na estrada de Sintra, cada vez menos perto de mim...
INVENTÁRIO DE PERDAS
Há 7 meses