segunda-feira, 19 de abril de 2010

Estrada

Esta semana não estava com a menor vontade de subir. Sim, desço toda semana, e vou continuar descendo, é extremamente necessário para a minha sanidade mental. Vez ou outro pode ser que fique por aqui, talvez desça apenas no sábado de manhã, mas não vou deixar de descer.

Não entendo quem veio pra cá e se acostumou a não descer. Não quero impor meu certo e errado, só não entendo. Se eu ficasse aqui em cima sempre ia enlouquecer rapidinho.

Domingo, dia de subir, tava com uma sensação estranha no final da tarde. Entrei no ônibus, senti um peso, fiquei mais estranha. Quando, já na serra, olhei pela janela e vi as luzes de Santos se afastando, me bateu uma tristeza, um aperto no peito... as luzes ofuscaram meus olhos, e eu não contive as lágrimas.

Não estou aqui para reclamar do meu trabalho, motivo maior pelo qual eu subo toda semana. Não reclamo porque me divirto com o que faço, com as pessoas, e porque, se eu comparar com quase todos os meus empregos anteriores, esse ganha de longe. Também não vim reclamar de São Paulo, cidade que eu continuo a gostar, como já disse mais de uma vez. É só uma angústia vinda muitas vezes do nada, um desconforto, uma saudade antecipada.

E meu problema não é nem só saudade de Santos. Digo mais: ando me sentindo de lugar nenhum, desencaixada.

É como um trecho do poema que vou colocar aqui embaixo: me sinto como o Álvaro, ao volante do Chevrolet pela estrada de Sintra (no caso, Sampa), deixando Lisboa (no caso, Santos) por não poder ficar lá, e com a certeza de quando chegar a Sintra terá pena de não ter ficado em Lisboa.

Sempre que fico assim, procuro o motivador da crise, e dessa vez não foi diferente. Procurei, procurei, e parece que o motivo foi justamente algo muito, muito bom que aconteceu semana passada: fiz 6 anos de namoro na ultima terça-feira, dia 13 de abril. SEIS anos! Há seis anos conhecia o Bruno, aos poucos me apaixonava, aos poucos me acostumava com ele sempre ali do lado, o tempo todo que eu precisasse. Aos poucos ia passando pela faculdade, algumas vezes ajudando, outras vezes ajudada por ele também. Saudade disso. Falta.

Mas não foi o peso do tempo, ou necessariamente da distância apenas. É mais por não saber como será daqui pra frente, e querer não querendo que as coisas voltassem ao que eram a 1 ano. Querer não querendo. Dualidades da vida.

Una-se isso a todos os meus receios, tudo o que eu sinto de angústia normalmente, e o resultado foi a cena descrita acima.

Estou melhor, mas o medo de inúmeras coisas ainda está aqui. Ah, que raiva de não poder trazer o passado na algibeira...

Não lembro se já o coloquei aqui, talvez sim, mas aí vai:

Ao volante do Chevrolet pela estrada de Sintra - Álvaro de Campos

Ao volante do Chevrolet pela estrada de Sintra,
Ao luar e ao sonho, na estrada deserta,
Sozinho guio, guio quase devagar, e um pouco
Me parece, ou me forço um pouco para que me pareça,
Que sigo por outra estrada, por outro sonho, por outro mundo,
Que sigo sem haver Lisboa deixada ou Sintra a que ir ter,
Que sigo, e que mais haverá em seguir senão não parar mas seguir?

Vou passar a noite a Sintra por não poder passá-la em Lisboa,
Mas, quando chegar a Sintra, terei pena de não ter ficado em Lisboa.
Sempre esta inquietação sem propósito, sem nexo, sem conseqüência,
Sempre, sempre, sempre,
Esta angústia excessiva do espírito por coisa nenhuma,
Na estrada de Sintra, ou na estrada do sonho, ou na estrada da vida...

Maleável aos meus movimentos subconscientes do volante,
Galga sob mim comigo o automóvel que me emprestaram.
Sorrio do símbolo, ao pensar nele, e ao virar à direita.
Em quantas coisas que me emprestaram eu sigo no mundo
Quantas coisas que me emprestaram guio como minhas!
Quanto me emprestaram, ai de mim!, eu próprio sou!

À esquerda o casebre — sim, o casebre — à beira da estrada
À direita o campo aberto, com a lua ao longe.
O automóvel, que parecia há pouco dar-me liberdade,
É agora uma coisa onde estou fechado
Que só posso conduzir se nele estiver fechado,
Que só domino se me incluir nele, se ele me incluir a mim.

À esquerda lá para trás o casebre modesto, mais que modesto.
A vida ali deve ser feliz, só porque não é a minha.
Se alguém me viu da janela do casebre, sonhará: Aquele é que é feliz.
Talvez à criança espreitando pelos vidros da janela do andar que está em cima
Fiquei (com o automóvel emprestado) como um sonho, uma fada real.
Talvez à rapariga que olhou, ouvindo o motor, pela janela da cozinha
No pavimento térreo,
Sou qualquer coisa do príncipe de todo o coração de rapariga,
E ela me olhará de esguelha, pelos vidros, até à curva em que me perdi.
Deixarei sonhos atrás de mim, ou é o automóvel que os deixa?

Eu, guiador do automóvel emprestado, ou o automóvel emprestado que eu guio?

Na estrada de Sintra ao luar, na tristeza, ante os campos e a noite,
Guiando o Chevrolet emprestado desconsoladamente,
Perco-me na estrada futura, sumo-me na distância que alcanço,
E, num desejo terrível, súbido, violento, inconcebível,
Acelero...
Mas o meu coração ficou no monte de pedras, de que me desviei ao vê-lo sem vê-lo,

À porta do casebre,
O meu coração vazio,
O meu coração insatisfeito,
O meu coração mais humano do que eu, mais exato que a vida.

Na estrada de Sintra, perto da meia-noite, ao luar, ao votante,
Na estrada de Sintra, que cansaço da própria imaginação,
Na estrada de Sintra, cada vez mais perto de Sintra,
Na estrada de Sintra, cada vez menos perto de mim...

quinta-feira, 15 de abril de 2010

Cosmo Ético

Espia pela fresta. Ela não está entre iguais.

As belas aldeãs falam línguas que não entende, nem faz questão de entender. Não sabe se está certa em não querer... mas não pensa estar errada. Apenas espia.

Ela não pretende se render, nem fazer parte dessa cosmítica de nomes famosos, marcas indeléveis nos outros. Mundo tão diverso do seu. E ainda bem?

Talvez haja quem julgue que deveria ser próximo, uma vez que é natural de sua espécie. E talvez o fosse, se ela se importasse; Contudo, não se importa. Na verdade, até bem pouco tempo ignorava muito do que ouve nas conversas.

Porém, agora que observa, o que vem das falas das belas aldeãs a incomoda, tanto quanto a espanta. Pensa em quanto tempo, palavras, espaço, atenção, valores desperdiçados. E por motivos tão óbvios, rasos, desimportantes a seu ver.

Em seus pensamentos, as críticas não recorrem à pobrezas, misérias, desastres ou outros assuntos quaisquer, naturalmente considerados mais importantes. Não; ela não quer se fingir superior, não nega sua pequenez, seus interesses menores.

O que realmente a espanta é o fato puro e simples de que ela se espantar. É ela se sentir estrangeira nesta aldeia, na qual trafega todos os dias. É ver um mundo que não está nem perto do seu, e ainda assim fica logo ao lado.

Pensa, por alguns segundos, se deveria se juntar a esse mundo, e enquanto pensa espia mais um pouco. Resolve: não se unirá. Continuará a espiar, de perto ou não. Ouvirá as conversas das belas aldeãs, finjirá participar às vezes, se quiser, mas nunca se unirá.

O que espiou desse mundo, de belas aldeãs, é suficiente para saber que ela, definitivamente, não o quer para si.

sexta-feira, 9 de abril de 2010

20 mil léguas submarinas

Não sou fã do Rio de Janeiro. Acho que deve ser um lugar muito bonito, quero visitá-lo, fazer todos os passeios turísticos, andar em Copacabana ouvindo bossa nova, mas não tenho esse amor todo pelo Rio. Porém, tenho que admitir que essa tragédia que está acontecendo por lá acabou mexendo comigo.

Estava no trabalho e ouvi uma notícia do enterro de um garoto de 8 anos, morto em um desabamento. Tinha visto a foto no Uol ontem, do pai abraçado ao filho já morto. Aquela foto me emocionou, mas eu preferi não entrar na matéria. Hoje fiquei sabendo que aquele garoto chegou a se comunicar com os bombeiros, debaixo dos escombros. Não foi salvo porque houve um outro deslizamento, e quando os bombeiros conseguiram resgatá-lo ele já estava morto.

Ouvindo isso eu quase chorei. É sério. Me coloquei no lugar do pai. Se fosse um dos meus irmãos, nem precisava ser meu filho... é muito triste pensar que por um detalhe, alguns segundos a mais, um garotinho de 8 anos morreu. Há milhares de outros casos, mais de 150 mortes em várias cidades do Rio, mas esse é o que mais me chamou a atenção.

Algumas imagens jamais sairão da minha memória. Me lembro de uma foto da Folha de S. Paulo, de uma rebelião em penitenciária, em que presos seguravam um objeto redondo, parecido com uma caixa ou um vaso de barro. Não era um objeto - era a cabeça de um preso, com um pedaço de pano atravessando-a de uma orelha a outra. Nas tragédias mais recentes, como a do Haiti, o terremoto do Chile, imagens de pessoas sem casas, rostos com olhar perdido. No dia 11 de setembro de 2001, o avião entrando no edifício, os prédios desabando. A foto do pai abraçado ao filho morto, chorando, é mais uma que ficará gravada nas 'minhas retinas fatigadas', como diria Drummond.

Caríssimos que me leem, a vida é frágil demais. Por isso devemos cuidar dela, nos cercar de quem vale a pena, dizer que amamos sempre. Fico pensando que, se aquele pai soubesse que não veria mais o filho com vida, provavelmente teria feito algo diferente no dia. Mas nós nunca sabemos quando é a última vez. Essa é a graça e a desgraça da vida. Vocês já sabem que penso mesmo assim, já perdi muito e sei como dói. Por isso sempre olho para tudo como a última vez. Não digo que estou certa, nem recomendo que ninguém ser assim, até porque não é muito fácil.

Faz pouco tempo tomei uma resolução: não quero me importar com o que não importa. Não é simples, e nem sempre eu consigo, mas até que vem dando resultado. Estou mais tranquila nestes últimos tempos, e penso que talvez seja por isso. A resolução acaba me afastando de algumas coisas, mas é extremamente necessária.

Para terminar, repito: a vida é frágil. E acrescento: é curta. Um cantor também já disse que 'a vida é tão rara'. Então, citando este mesmo cantor, digo que "quando olhar para o lado, só quero estar cercado de quem me interessa". E do que realmente interessa.



Lenine - É o que me interessa

"Daqui desse momento
Do meu olhar pra fora
O mundo é só miragem
A sombra do futuro
A sobra do passado
Assombram a paisagem
Quem vai virar o jogo e transformar a perda
Em nossa recompensa
Quando eu olhar pro lado
Eu quero estar cercado só de quem me interessa

Às vezes é um instante
A tarde faz silêncio
O vento sopra a meu favor
Às vezes eu pressinto e é como uma saudade
De um tempo que ainda não passou
Me traz o seu sossego, atrasa o meu relógio
Acalma a minha pressa
Me dá sua palavra
Sussurre em meu ouvido
Só o que me interessa

A lógica do vento
O caos do pensamento
A paz na solidão
A órbita do tempo
A pausa do retrato
A voz da intuição
A curva do universo
A fórmula do acaso
O alcance da promessa
O salto do desejo
O agora e o infinito
Só o que me interessa"