Não sou fã do Rio de Janeiro. Acho que deve ser um lugar muito bonito, quero visitá-lo, fazer todos os passeios turísticos, andar em Copacabana ouvindo bossa nova, mas não tenho esse amor todo pelo Rio. Porém, tenho que admitir que essa tragédia que está acontecendo por lá acabou mexendo comigo.
Estava no trabalho e ouvi uma notícia do enterro de um garoto de 8 anos, morto em um desabamento. Tinha visto a foto no Uol ontem, do pai abraçado ao filho já morto. Aquela foto me emocionou, mas eu preferi não entrar na matéria. Hoje fiquei sabendo que aquele garoto chegou a se comunicar com os bombeiros, debaixo dos escombros. Não foi salvo porque houve um outro deslizamento, e quando os bombeiros conseguiram resgatá-lo ele já estava morto.
Ouvindo isso eu quase chorei. É sério. Me coloquei no lugar do pai. Se fosse um dos meus irmãos, nem precisava ser meu filho... é muito triste pensar que por um detalhe, alguns segundos a mais, um garotinho de 8 anos morreu. Há milhares de outros casos, mais de 150 mortes em várias cidades do Rio, mas esse é o que mais me chamou a atenção.
Algumas imagens jamais sairão da minha memória. Me lembro de uma foto da Folha de S. Paulo, de uma rebelião em penitenciária, em que presos seguravam um objeto redondo, parecido com uma caixa ou um vaso de barro. Não era um objeto - era a cabeça de um preso, com um pedaço de pano atravessando-a de uma orelha a outra. Nas tragédias mais recentes, como a do Haiti, o terremoto do Chile, imagens de pessoas sem casas, rostos com olhar perdido. No dia 11 de setembro de 2001, o avião entrando no edifício, os prédios desabando. A foto do pai abraçado ao filho morto, chorando, é mais uma que ficará gravada nas 'minhas retinas fatigadas', como diria Drummond.
Caríssimos que me leem, a vida é frágil demais. Por isso devemos cuidar dela, nos cercar de quem vale a pena, dizer que amamos sempre. Fico pensando que, se aquele pai soubesse que não veria mais o filho com vida, provavelmente teria feito algo diferente no dia. Mas nós nunca sabemos quando é a última vez. Essa é a graça e a desgraça da vida. Vocês já sabem que penso mesmo assim, já perdi muito e sei como dói. Por isso sempre olho para tudo como a última vez. Não digo que estou certa, nem recomendo que ninguém ser assim, até porque não é muito fácil.
Faz pouco tempo tomei uma resolução: não quero me importar com o que não importa. Não é simples, e nem sempre eu consigo, mas até que vem dando resultado. Estou mais tranquila nestes últimos tempos, e penso que talvez seja por isso. A resolução acaba me afastando de algumas coisas, mas é extremamente necessária.
Para terminar, repito: a vida é frágil. E acrescento: é curta. Um cantor também já disse que 'a vida é tão rara'. Então, citando este mesmo cantor, digo que "quando olhar para o lado, só quero estar cercado de quem me interessa". E do que realmente interessa.
Lenine - É o que me interessa
"Daqui desse momento
Do meu olhar pra fora
O mundo é só miragem
A sombra do futuro
A sobra do passado
Assombram a paisagem
Quem vai virar o jogo e transformar a perda
Em nossa recompensa
Quando eu olhar pro lado
Eu quero estar cercado só de quem me interessa
Às vezes é um instante
A tarde faz silêncio
O vento sopra a meu favor
Às vezes eu pressinto e é como uma saudade
De um tempo que ainda não passou
Me traz o seu sossego, atrasa o meu relógio
Acalma a minha pressa
Me dá sua palavra
Sussurre em meu ouvido
Só o que me interessa
A lógica do vento
O caos do pensamento
A paz na solidão
A órbita do tempo
A pausa do retrato
A voz da intuição
A curva do universo
A fórmula do acaso
O alcance da promessa
O salto do desejo
O agora e o infinito
Só o que me interessa"
INVENTÁRIO DE PERDAS
Há 11 meses