“Ignorância - ig.no.rân.cia:
1. Característica ou estado de quem ignora; falta de saber, de conhecimentos; Desconhecimento [ antôn.: Antôn.: instrução, conhecimento ]
2. Estado de quem não tem informação ou não está a par de algo: Mostra total ignorância desses fatos.
3. Imperícia, inabilidade, incompetência: É lamentável a ignorância desse pintor.
4. Rudeza, grosseria. [ antôn.: Antôn.: gentileza ]
5. Estupidez, boçalidade. [F.: Do lat. ignorantia, ae.]
Coloco essa definição do dicionário Caldas Aulete para não deixar margem à dúvidas, porque vou citar ignorância algumas vezes no texto, apenas em um sentido: o de não saber, não conhecer algo.
Uma das frases que acho mais verdadeiras é “a ignorância é uma benção”. É mesmo. Mas, sempre que posso, prefiro saber, deixar essa ignorância de lado, mesmo que doa. Na maioria das vezes dói, =).
Eu tenho problemas com religiões - vejam bem, religiões, não fé. Diferencio as duas: fé não depende de religião, e vice-versa. Conheço gente que vai todos os domingos em missas, cultos, o que for, e não acredita realmente ou, o que é pior, não leva os ensinamentos que recebe para a vida. E a pessoa de mais fé que conheço não tem religião, e não conheço quem fale com mais propriedade do que ele sobre a bíblia, sobre viver em paz com as próprias ações.
Admiro e respeito as pessoas que conseguem se manter numa religião. Eu não consegui. Comecei a questionar e não ter respostas que achasse satisfatórias, comecei a duvidar de alguns preceitos, comecei a me incomodar com alguém decidindo o que é certo ou não por mim. Questões que surgiram bem cedo, quando eu ainda era criança e vi um garotinho que não tinha uma parte do braço. Ia perguntar pra ele porque faltava aquela parte, e minha mãe não deixou. Nunca tinha visto uma criança assim, e perguntei pra minha mãe, então, o motivo. Minha mãe disse que ele tinha nascido assim, porque foi assim que Deus quis. Me lembro de não entender isso: por que eu nasci perfeita, sem problemas, e ele não? O que ele fez para ser punido ainda antes de nascer?
Claro que ainda não sabia procurar respostas, tinha no máximo 6 anos. Depois que cresci fui atrás disso, já com outras perguntas na cabeça. Achei uma ou outra resposta, mas todas me levavam para uma imagem que não condizia com Deus, pelo menos para mim. Ouvia que deveríamos ser
tementes a Deus, e até hoje acho isso estranho. Por que temente? Por que a palavra medo? Tenho reservas com relação à bíblia como documento histórico, e até com relação a alguns ensinamentos contidos nela. Enfim, problemas que surgiram porque resolvi questionar dogmas sagrados.

Pode parecer que estou me julgando diferente porque “questionei”, e que penso que se você acredita em uma religião é porque não a questionou. Não, não é isso. Esse foi apenas o meu caminho de questionamentos; por isso disse que admiro quem consegue questionar e se manter acreditando na religião, uma vez que eu não consegui. Sai da ignorância para uma espécie de saber que não me permitiu continuar a seguir a igreja católica, que era a minha religião.
Procurei melhores respostas, achei no espiritismo kardecista. Acredito em reencarnação, e ela explica porque nascemos diferentes, alguns com problemas, outros perfeitos. Mas não sou espírita. Essa seria a religião mais próxima da minha fé, porém, ainda assim, eu não me encaixo nela. Não fui ver nenhum dos filmes espíritas que viraram moda, assim como não fui ver os filmes do Padre Marcelo, porque me incomoda essa doutrinação, essa busca por fiéis. Me incomoda a posição de alguns espíritas, como se a religião deles fosse melhor, mais evoluída. Já vi essa posição em outros lugares, e não penso ser certo. Isso também me afasta das religiões.
Porque estou falando isso, do nada? Porque estou numa faculdade laica em que muitos se declaram ateus. Ok, respeito, como respeito os religiosos. Mas não gosto da apologia a esse pensamento. Isso também é doutrinação, só em causa contrária a que falei antes. Não, não quero doutrinação, não quero que alguém interprete palavras ou histórias por mim e diga que só existe uma verdade. Quero procurar minhas interpretações e minhas verdades.
Eu tenho uma fé própria, acredito em Deus, já o questionei, e a imagem que construí dele é pacífica, amorosa, justa. Para mim, acreditar em Deus é agir com justiça, respeito as diferenças, ajudar quando se pode, tentar não maltratar as pessoas, tentar fazer coisas boas, seguir um caminho certo, de acordo com suas impressões e seus valores. Esse conceito parece amplo e indefinido, e é mesmo. Gosto de pensar que sendo uma pessoa boa já significa muito. Deus me conhece, como conhece a todos, e acredito que ele sabe melhor do que eu o quanto isso é verdade pra mim.
Todos somos iguais, não importa o que somos, muito menos para Ele. Não acho que Deus despreze homossexuais porque eles estão “indo contra as leis”. Que leis? As que estão na bíblia? O “crescei e multiplicai”? Poderia ser minimalista e perguntar, então, se pessoas inférteis estão fora das leis também, mas nem vou fazer isso. O Deus no qual acredito não discrimina ninguém, por mais imperfeita que essa pessoa seja. Ele não vai mandar ninguém “para o inferno” porque esse alguém gosta de pessoas do mesmo sexo. Nem vai deixar alguém vagando na “danação eterna” por não ser batizado. Desculpa, mas não dá. Acredito que Ele tenha coisas mais sérias para se preocupar.
Se você que está lendo isso tem sua religião, não entenda mal ou se ofenda. Melhor - pode colocar sua opinião aqui. Sei que muitos de vocês seguem uma religião, e, repito, admiro isso. Desde que vocês já tenham questionado algumas coisas, sem simplesmente aceitar o pré-concebido como uma tábula rasa, uma folha de papel em branco. A ignorância é uma benção. Mas eu prefiro saber.