quarta-feira, 24 de agosto de 2011

Memorabília


Assisti a dois filmes muito bons no último final de semana. Os dois tratam de assuntos diferentes, são filmes diferentes - um é uma ode à Paris (ah, Paris...), o outro é ficção nerd ao estilo de Goonies. Ou seja, à primeira vista, um não tem nada a ver com o outro. Sim e não - para mim, o grande tema é a saudade, o saudosismo, a nostalgia.

Vou explicar melhor - assisti "Meia Noite em Paris", de Wood Allen, e "Super 8", de J. J. Abrams e Steven Spielberg. Dois filmes que me conquistaram cada um de seu jeito. Começando pelo primeiro, "Meia Noite..." é lindo, lindo, lindo. Já nas primeiras cenas ele nos apresenta a cidade, nos deixa entrar nela, nos quer bem vindos. A história é contada pelas aventuras inesperadas de Gil Pender, escritor de roteiros hollywoodianos que deseja escrever um livro "de verdade", um grande romance.

Ele vai com a noiva e a familia dela para Paris, cidade onde queria ter vivido durante os anos 20, época em que seus heróis da literatura, música e pintura (Ernest Hemingway, Scott Fitzgerald, Salvador Dalí, Cole Porter, entre outros) estavam por lá. Ele é um saudosista de uma época que não viveu, um romântico nessa acepção da palavra. Gil está de casamento marcado, e encontram amigos da noiva, Inez, na cidade, com os quais ele não consegue se sentir bem. Começa, então a sair sozinho por Paris, e em uma noite acontece o impossível - ele viaja no tempo, para 1920, para encontrar seus ídolos!



A reconstituição da época e das personalidades é um show à parte, mas não vou entrar muito nesse mérito, para não estragar as cenas. Dou apenas o destaque para Salvador Dalí e os outros surrealistas, engraçadíssimas as cenas com eles. E Ernest Hemingway está sensacional!

No entanto, o principal é mesmo Paris, o palco dessa aventura. A todo momento faz-se uma ode em homenagem a cidade luz, "mais bela sob a chuva". De tal forma que saí do filme totalmente enlevada pela atmosfera captada da tela. A única coisa que conseguia pensar era: "Por que eu não estou em Paris? Por que não largo tudo e vou viver lá, escrever um livro, como também é meu sonho?". O próprio filme dá a resposta a esse anseio, de certa forma - não vou revelar; assista e entenda o motivo.



Agora, "Super 8". Quando era mais nova e tinha tempo pra ficar em casa vendo sessão da tarde, nunca deixava de ver "Os Goonies". Considero o filme um pequeno clássico juvenil, e sei que muitos críticos concordam comigo, hehe. É extremamente divertido ver os sustos e as aventuras daquele grupo de meninos e meninas... e como esquecer o Sloth? Lembranças de infância, que já se apresentava levemente nerd =P.

Pois bem, "Super 8" tem tudo para ser "Os Goonies" de hoje, com umas pitadas de "ET, o Extraterrestre". Conta a história de um grupo de meninos e uma menina, que estão fazendo um filme de zumbis para participar de um concurso. Durante as filmagens de uma das cenas, os garotos presenciam um graaande e muito estranho acidente de trem... e aí começam os problemas para eles e a cidadezinha onde moram.

O longa tem todos os ingredientes: a amizade entre os garotos, a disputa velada pela garota, a coragem, a curiosidade. Já o vejo como um novo clássico, com o perdão da contradição. Deu vontade de ser mais nova, para ter esse filme como referência da minha infância... mas tudo bem, aproveitei muito o filme, mesmo já estando mais velha.

E é justamente aqui que entra a minha comparação entre os dois filmes. Para mim, os longas trazem bem forte o sentimento de saudosismo, memorabília. Em Paris, o personagem é nostálgico, e o público acompanha essa saudade e a entende. Em Super 8, a nostalgia é do diretor, J. J. Abrams, do produtor, Spielberg, e do público. Quem gostou e teve a infância marcada por filmes como "Os Goonies" vai assistir para sentir uma saudade diferente, que se faz ao ver referências na tela. Em Paris, Gil é saudosista, e nos encanta com suas referências. Em Super 8 ficamos encantados com as memorias que o diretor usa, para nos encantar com a nossa própria saudade. Ah, o cinema... thou art a heartless bitch!




quarta-feira, 10 de agosto de 2011

Argentina

Buenos Aires tem um cheiro específico. Mistura de perfume, empanadas e vinho tinto. Pois é, passei um final de semana falando um portunhol bem ruinzinho e ouvindo um espanhol com sotaque quase impossível de entender, haha. Argentina, nossos vizinhos, tão diferentes de nós.

Primeira viagem de avião e primeira vez fora do país. Eu, Bruno, Marcélia, André, Mayumi e Arthur, soltos no centro de Buenos Aires. Que cidade bonita... e as pessoas foram bem legais com esses mais 6 entre muitos brasileños perdidos por lá. Cheguei na noite de sexta, encantada com o clima de grande metrópole (adoro grandes metrópoles). A defini, mais que rapidamente, antes que alguém tivesse a mesma idéia, como uma mistura de Curitiba e São Paulo. Em alguns momentos me sentia no centro de SP, em outros via as esquinas próximas ao mercado municipal de Curitiba. Muitos outdoors, muitos mesmo! É curioso ver outdoors, uma vez que moro em São paulo e Santos, dois lugares com Lei da Cidade Limpa. Aliás, não gosto dessa lei, mas isso é assunto pra outro post...



Muitas pichações políticas nos muros. Cara, fiquei impressionada como os argentinos são politizados. Sério, certamente eu nunca veria tantas pichações contra ou a favor do governo nos muros do nosso Brasil. Falavam dos desaparecidos políticos, de fome, falavam a favor de Cristina Kirchner, contra, falavam, enfim. É época de eleições nas províncias argentinas (lá a organização das eleições é diferente), por isso em todos os lugares via cartazes de políticos, e em todos os canais de tv passavam comerciais de candidatos.

Fotografei faixas na Plaza de Mayo que pediam resolução de problemas de trabalhadores, pichações na estátua no centro dessa praça que pediam fim de mortes. Queria muito conversar com alguém de lá, que me explicasse toda essa confusão, essa política. Consegui na volta, no avião, conversar com um cidadão de Buenos Aires que viaja pelo mundo, e vê essa efervescência de dentro e também com alguma distância. Mesmo assim, muitas dúvidas permanecem. E uma admiração pelo povo de lá. Ok, são pichações provavelmente motivadas por partidarismo. Ainda assim, não dá para ignorar as diferenças entre nós e eles nesse sentido. Aqui, nem isso a gente vê nas ruas quase, e sobretudo não com a mesma frequência.



Voltando à viagem, mais passeios pelos pontos históricos, Puerto Madero e Caminito se tornando meus preferidos, de longe. Puerto Madero porque é água, haha, não marinha, mas água, e meus finais de semana precisam de cenários aquáticos. E como é bonito o porto e os jardins que o acompanham! O Caminito também é lindinho, muito fofinhas as casas coloridas e os bares e restaurantes com apresentações de tango. Na próxima vez vou reservar uma manhã/tarde inteira só pra ele! Como é em área meio perigosa, não é aconselhável andar por ali à noite... como isso não é impedimento exatamente, talvez eu tente, não sei =P.

Fui na Bombonera, estádio do Boca Juniors, e assisti um jogo no estádio do San Lorenzo, e sim, foram passeios beem legais, porém esses são passeios mais Bruno Rios, hahahaha.


Agora, o ponto alto da viagem - o show de tango no Señor Tango. Não tenho mesmo como descrever o quão maravilhoso foi o show! Não é só a dança, tem teatralidade, tem canto, tem a orquestra ao vivo, tocando a alguns metros de você. Os casais dançam absurdamente bem, os cantores, sobretudo o rapaz, interpretam as canções de um jeito que você sente a letra. O local todo tem uma vibração, uma atmosfera que... não dá pra explicar. Foi totalmente encantador, completely blew me away. Eu chorei. Terrivelmente foda. Nunca a frase do Manuel Bandeira "A única coisa a fazer é tocar um tango argentino" fez tanto sentido.

Na volta, turbulência no avião, mas deu tudo certo, só um friozinho na barriga. Em solo paulistano, a sensação maravilhosa de ouvir pessoas falando em português! Na boa, cansei de ouvir espanhol, queria desesperadamente ouvir minha língua. De tanto falar portunhol, na Argentina e no avião, quando as comissárias de bordo vinham falar comigo eu tinha que pensar durante um tempo antes de falar inglês. Olha isso - era como se eu tivesse que desligar a chave "portunhol" para ligar a chave "inglês" na minha cabeça. Bizarro.

Enfim, Buenos Aires, voltarei a te visitar em breve.

quarta-feira, 3 de agosto de 2011

Vergonha heterossexual

Desde quando a maioria estabelecida, com direitos assegurados, precisa lutar por algo? Desde quando o "normal" (entre milhões de aspas, por favor) precisa lutar para se defender do diferente? Sabe desde quando? Desde ontem, em São Paulo, de acordo com os vereadores que aprovaram o Dia do Orgulho Hétero. Pelamordedeus! Vergonha dessa raça, que deveria estar defendendo qualquer coisa mais digna, que deveria se preocupar com tantos problemas dessa grande cidade, e não exercer esse direito a ser heterossexual.

Alguém já foi discriminado por andar de mãos dadas com um namorado de outro sexo? Alguém já apanhou por ser hétero? Algum cara já morreu ou foi perseguido por namorar mulheres? Alguém já viu a decepção no rosto de pessoas por dizer que é hétero? Não. Mas agora alguns se sentem no direito de dizer que, se os gays têm o dia deles, os héteros também devem ter. Afinal, vivemos numa democracia. Tudo em nome da democracia. E de, segundo o vereador Carlos Apolinário, "conscientizar e estimular a população a resguardar a moral e os bons costumes".

Não falarei mais. Deixarei gente muito melhor falar por mim:

Sakamoto / Dimenstein (pois é, concordei até com o Dimenstein) / Inácio Araújo

Mais um link - matéria com nomes dos cidadãos que votaram a favor e contra esse projeto.

Vergonha de verdade. Não vou comemorar esse dia.