Eu cheguei a uma divisão sobre as duas letras - acho que elas identificam dois tipos de "estrangeiros" em São Paulo: os que chegam aqui pensando que só encontrarão uma selva de pedra cinzenta e sem muita graça, lugar pra talvez ganhar a vida e só. E acabam descobrindo a "poesia concreta de suas esquinas". E os que chegam maravilhados, admirando a cidade com um buquê, pra se dar conta, depois de um tempo, que "buquês são flores mortas num lindo arranjo".
Sem tecer considerações sobre qual dos tipos de estrangeiros é melhor, ou mais feliz, declaro que eu pertenço ao segundo grupo. Sempre passeei por aqui, antes de morar, porque gosto da cidade. Gosto, assim mesmo, no presente. Olho para ela e não vejo exatamente meu rosto, mas sim uma fragmentação de rostos tão bonita, diversa, múltipla, plural, que me encanta.
Ouso fazer uma leitura da música do Criolo - quando ele fala que "não existe amor em SP", eu não vejo uma reclamação romântica, de falta de amor dos paulistanos. Existem as pessoas e existe o sentimento nelas, claro. Acredito que o que ele quer dizer é não existe amor nascido da cidade de São Paulo. Nós, estrangeiros, sentimos bem isso. A cidade nos acolhe, as pessoas nos acolhem e nos amam; nós nos apaixonamos e amamos SP. Mas SP não é uma boa adepta do poliamor, e não nos ama de volta. Somos como a visita, que SP aceita, trata bem, simpatiza, mas não ama. São muitos filhos, são muitos agregados, muitos estrangeiros. É tudo em grande número: congestionamentos, usuários de transporte público, protestos, problemas, vidas, bares, namoros, términos, shoppings, mendigos, dinheiro, pobreza. Tudo excessivo. E o amor talvez não consiga caber ali, em meio a tantos "íssimos" e superlativos.
A letra (linda) do Caetano diz que, se viemos de um sonho feliz de cidade, passamos a chamá-la de realidade "porque és o avesso do avesso do avesso do avesso". Quatro avessos dão um lado certo da roupa. E eu acho que é isso mesmo - é tanto avesso que chega num ponto certo, comum. Talvez um pouco amassado, depois dos desavessos.
Não vou desmerecer nunca essa letra, porque quando ando no centro alguma coisa acontece no meu coração. E hoje, quando andava na garoa, pensava em como, mesmo com tudo, eu gosto daqui. Aqui eu me recuperei da minha falência amorosa, aqui eu reencontrei o amor há menos de um ano, aqui eu estou fazendo um novo caminho, estudando, trabalhando, vivendo.
Entretanto, a música que eu elejo como tema é o rap (quer coisa mais paulistana?) do Criolo, outro estrangeiro na metrópole:
"Não existe amor em SP
Um labirinto místico
Onde os grafites gritam
Não dá pra descrever
Numa linda frase
De um postal tão doce
Cuidado com doce
São Paulo é um buquê
Buquês são flores mortas
Num lindo arranjo
Arranjo lindo feito pra você
Não existe amor em SP
Os bares estão cheios de almas tão vazias
A ganância vibra, a vaidade excita
Devolva minha vida e morra afogada em seu próprio mar de fel
Aqui ninguém vai pro céu
Não precisa morrer pra ver Deus
Não precisa sofrer pra saber o que é melhor pra você
Encontro duas nuvens em cada escombro, em cada esquina
Me dê um gole de vida
Não precisa morrer pra ver Deus"
Os bares estão cheios de almas tão vazias
A ganância vibra, a vaidade excita
Devolva minha vida e morra afogada em seu próprio mar de fel
Aqui ninguém vai pro céu
Não precisa morrer pra ver Deus
Não precisa sofrer pra saber o que é melhor pra você
Encontro duas nuvens em cada escombro, em cada esquina
Me dê um gole de vida
Não precisa morrer pra ver Deus"