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terça-feira, 18 de janeiro de 2011

Quem quer criar desordem?



Eu queria achar um jeito de falar do que está acontecendo no Rio e em São Paulo sem imitar o que vem sendo dito, ou o que eu mesma falei aqui ano passado, também em janeiro, também sobre deslizamentos e desastres. Pois bem - achei um jeito. Vou falar de um projeto que está em tramitação no Congresso e pretende mudar o código florestal. Esse projeto não considera topos de morro como áreas de preservação permanente e libera a construção de casas em encostas. Ou seja, torna legais construções justamente nas áreas que tem mais chance de deslizamento de terra.

Como se não bastasse, o projeto reduz a faixa de preservação ambiental nas margens de rios; hoje, construções só são permitidas com distância de 30 metros do rio. Se aprovado, o projeto diminui essa distância pela metade: 15 metros.

Ok, ok, todos nós sabemos que a lei não tem sido respeitada há muito tempo, e que as pessoas já moram em encostas, topos de morro e próximas a rios. Não faltam exemplos, como a tragédia atual do Rio de Janeiro, que vitimou quase 700 pessoas até agora, e as cheias de rios que alagam partes de São Paulo e cidades do interior, como Franco da Rocha e Jaguariúna. Sim, sem dúvida.

A diferença é que, se esse projeto for em frente, todos esse problemas serão “permitidos por lei”. Ou seja, pessoas vão morrer, perder casas, bairros serão alagados, tudo com base na lei.

O relator do projeto é Aldo Rebelo, o mesmo cara que queria retirar da língua portuguesa todos os estrangeirismos. Pode parecer uma boa idéia, mas na prática isso serviria para que não pudessemos mais falar abajur, arroz, paella, computador e outras coisinhas.

Hoje, se os governos quiserem, podem retirar pessoas que moram irregularmente em encostas, topos de morros e beira de rios e colocar em casas em locais mais seguros. A revisão do Código Florestal legaliza áreas consideradas de risco, o que impediria os governos de retirarem pessoas desses lugares. Se hoje em dia, sendo irregulares, essas construções se multiplicam e subtraem vidas, imaginem se o código for revisado? Os governos não só vão continuar não fazendo nada, ou quase nada, por essa população, como estarão amparados pela lei. Absurdo é pouco.

Para se ter uma idéia, infográfico da Folha de S. Paulo:


Vou colar aqui embaixo trechos de matérias da Folha, fechadas para assinantes, que falam dessa questão. Essas matérias saíram no dia 16 de janeiro, já depois do desastre. Vou colar tambem um link com a opinião de minha candidata derrotada à presidência, Marina Silva.

Espero que os caras que os eleitores brasileiros colocaram lá no Congresso ponham a mão na consciência, e não deixem passar a revisão do código. E que a Dilma saiba o que fazer para prevenir, e não só repassar verbas depois do ocorrido, como fazia seu antecessor.

Entrevista com Aldo Rebelo, para a Folha: Ele nem sabe onde está a legislação para construções em áreas de risco urbanas, só sabe que seus assessores garantiram que não está no projeto dele. Que orgulho que dá dele, não?

Folha - Quais mudanças o Código fará nas regras de ocupação das cidades?
Aldo Rebelo - Eu sou relator do Código Florestal. A lei de uso e ocupação do solo urbano é outra. Tratamos de ocupação para agricultura e pecuária.

O texto fala que encostas a partir de 45 graus nas cidades podem ser ocupadas por casas. Ele também tem reflexos na área urbana...
Não alteramos nem mexemos em nada que tivesse relação com espaço urbano. Só deixamos o que já vinha da lei anterior.

O seu texto cita a regularização fundiária em áreas urbanas consolidadas.
Isso é que já estava na lei. Isso é o que já tem.

Esse item não existe no atual Código Florestal.
Existe numa legislação que torna mais fácil desapropriações para assentamentos urbanos.

A lei é a do programa Minha Casa Minha Vida?
Provavelmente deve ser. Sei porque nossos consultores asseguraram que nada de novo nem diferente entrou na questão do solo urbano. As alterações foram apenas para o uso da reserva legal e áreas de preservação permanente.



Especialista fala sobre a lei, também na matéria da Folha:

“Nos morros, o objetivo da lei atual é preservar a vegetação natural, que aumenta a resistência das encostas e reduz deslizamentos de terra. Nas margens dos cursos d'água -rios, córregos, riachos, ribeirões etc.-, a área reservada visa preservar as várzeas, espaços onde os alagamentos são naturais nas épocas das chuvas fortes.

Boa parte da legislação não é cumprida, principalmente nas cidades. Mas as prefeituras, responsáveis por fiscalizar as regras e impedir a ocupação dessas áreas, têm os dispositivos à disposição.

Mesmo que a ocupação irregular ocorra, os limites atuais facilitam a remoção sem necessidade, por exemplo, de desapropriação de terras, afirma Marcio Ackermann, geógrafo e consultor ambiental, autor do livro "A Cidade e o Código Florestal". Ele diz que as áreas de preservação permanente previstas no Código Florestal coincidem, na maioria, com as áreas de risco de ocupações.

Ackermann cita como exemplo os locais onde morreram pessoas na semana passada em Mauá (Grande SP), e Capão Redondo (zona sul de SP). O mesmo ocorre, diz, na maioria dos locais atingidos pelos deslizamentos na região serrana do Rio.”

Marina Silva: http://noticias.uol.com.br/ultimas-noticias/agencia/2011/01/18/marina-silva-pede-que-codigo-florestal-seja-barrado.jhtm

sexta-feira, 26 de novembro de 2010

Rio?

Tarde do dia 25 de novembro. Eu fui até a Feira do Livro na Usp, comprei 4 livros novos pra minha estante, esperei horas em uma fila da Companhia das Letras, depois ônibus e cheguei em casa quando começou a chover. Enquanto isso, no Rio de Janeiro, pessoas fugiam de balas, se escondiam em suas casas e locais de trabalho, por causa de uma guerra bárbara.

Escrevi aqui sobre violência, inclusive sobre Tropa de Elite 2. Já nem sei quantas vezes vi notícias que me fizeram agradecer por não estar na cidade maravilhosa. O que está acontecendo agora por lá é uma das tragédias mais anunciadas que já pudemos testemunhar. Todo mundo sabia que isso ia acontecer mais cedo ou mais tarde. E o que foi feito?

O governo do Rio de Janeiro defende a invasão das favelas pela polícia, como solução. Seria uma solução fabulosa, se vivêssemos em um mundo perfeito, com autoridades que não se vendem por um carro, uma promoção, alguns milhares de reais. Seria perfeito se não tivéssemos uma população pobre, obrigada a viver em locais sem nenhuma condição e que se submete a pagar a bandidos por proteção contra bandidos piores. Seria ótimo se não tivéssemos um sistema que favorece o tráfico de drogas e usuários que o sustentam. Não é nesse mundo que vivemos.

Nesse momento, sentada aqui escrevendo, tento pensar numa solução. Não, não tenho a pretensão de conseguir a solução, não sou boa o suficiente pra isso. Só não queria escrever mais um texto sobre isso, falar disso, sem ter uma esperança qualquer. Cansa conversar sobre isso e não saber o que fazer.

Vocês talvez conheçam a música Jeremy, do Pearl Jam. Ela foi escrita baseada em dois fatos reais: primeiro, um menino que se matou em frente a classe na escola - ele era quieto, tinha poucos amigos, e um dia foi pra escola e no meio da aula de inglês, saiu da sala, voltou com um revólver e se matou. A outra história o próprio Eddie Vedder quase testemunhou - um garoto que também se matou, na escola dele, quando ele era jovem. Ele chegou a ouvir o tiro.

Por que esses garotos se mataram? Talvez porque eles falassem e ninguém os ouvisse, talvez por não suportarem mais a vida, talvez por nos alertar de algo, talvez só porque estavam tristes. Mas uma morte assim sempre serve para nos chamar atenção para algum problema.

O Rio é o nosso Jeremy, agora. Eles está com a arma apontada para a própria cabeça, e nós estamos olhando, sem saber o que fazer para impedir o suicídio. Talvez não consigamos encontrar uma solução a tempo, e ele morra. Quantos mais deixaremos morrer?

Amigos, não quero parecer o capitão Nascimento no primeiro filme, porém acredito que um jeito de começar a vencer o tráfico é PARAR DE USAR DROGAS! Ou legalizar! Não sei se legalizar é uma boa opção, mas pior do que está acho difícil ficar.

Não adianta subir o morro e matar todo mundo, logo terá mais gente assumindo os postos vazios. Então, por favor, defender que a polícia tem que matar todo mundo não vai mudar nada!

E, desculpem os termos a seguir, mas é foda ver que tem gente pensando na Copa do mundo. Na boa, foda-se a Copa do mundo, foda-se a Olimpíada, tem gente morrendo lá, caralho! Tem criança correndo de balas, ok? Dá pra pensar nisso agora, e esquecer os jogos?

Se cuidem, todos vocês. Torço pelo Rio. Que nosso Jeremy sobreviva.



Jeremy - Pearl Jam


At home
Drawing pictures of mountain tops
With him on top, lemon yellow Sun
Arms raised in a "V"
The dead lay in pools of maroon below

Daddy didn't give attention
To the fact that mommy didn't care
King Jeremy the wicked
Oh, ruled his world

(2x)
Jeremy spoke in class today

Clearly I remember
Picking on the boy
Seemed a harmless little fuck

Oh, but we unleashed a lion
Gnashed his teeth
And bit the recess lady's breast

How could I forget?
And he hit me with a surprise left
My jaw left hurting

Oh, dropped wide open
Just like the day
Oh, like the day I heard

Daddy didn't give affection, no
And the boy was something
That mommy wouldn't wear
King Jeremy the wicked
Oh, ruled his world

(3x)
Jeremy spoke in class today

Try to forget this (Try to forget this)
Try to erase this (Try to erase this)
From the blackboard

(2x)
Jeremy spoke in class today

(2x)
Jeremy spoke
Spoke

Jeremy spoke in class today

Tradução

Em casa
Desenhando figuras de topos de montanhas
Com ele no topo, sol amarelo limão
Braços erguidos em V
Os mortos estendidos em poças de cor marron embaixo deles

Papai não deu atenção
Para o fato de que a mamãe não se importava
Rei Jeremy, o perverso
Governou seu mundo

Jeremy falou na aula de hoje
Jeremy falou na aula de hoje

Me lembro claramente
Perseguindo o garoto
Parecia uma sacanagem inofensiva

Mas nós libertamos um leão
Que rangeu os dentes
e mordeu os seios da menina na hora do intervalo

Como eu poderia esquecer
E me acertou com um soco de esquerda de surpresa
Meu maxilar ficou machucado

Deslocado e aberto
Assim como no dia
Como dia em que ouvi

Papai não dava carinho
E o garoto era algo
Que mamãe não aceitaria
Rei Jeremy, o perverso
Governou seu mundo

(3x)
Jeremy falou na aula de hoje

Tente esquecer isto
Tente apagar isto
Do quadro negro

(2x)
Jeremy falou na aula de hoje

(2x)
Jeremy falou
Falou

Jeremy falou na aula de hoje

sexta-feira, 9 de abril de 2010

20 mil léguas submarinas

Não sou fã do Rio de Janeiro. Acho que deve ser um lugar muito bonito, quero visitá-lo, fazer todos os passeios turísticos, andar em Copacabana ouvindo bossa nova, mas não tenho esse amor todo pelo Rio. Porém, tenho que admitir que essa tragédia que está acontecendo por lá acabou mexendo comigo.

Estava no trabalho e ouvi uma notícia do enterro de um garoto de 8 anos, morto em um desabamento. Tinha visto a foto no Uol ontem, do pai abraçado ao filho já morto. Aquela foto me emocionou, mas eu preferi não entrar na matéria. Hoje fiquei sabendo que aquele garoto chegou a se comunicar com os bombeiros, debaixo dos escombros. Não foi salvo porque houve um outro deslizamento, e quando os bombeiros conseguiram resgatá-lo ele já estava morto.

Ouvindo isso eu quase chorei. É sério. Me coloquei no lugar do pai. Se fosse um dos meus irmãos, nem precisava ser meu filho... é muito triste pensar que por um detalhe, alguns segundos a mais, um garotinho de 8 anos morreu. Há milhares de outros casos, mais de 150 mortes em várias cidades do Rio, mas esse é o que mais me chamou a atenção.

Algumas imagens jamais sairão da minha memória. Me lembro de uma foto da Folha de S. Paulo, de uma rebelião em penitenciária, em que presos seguravam um objeto redondo, parecido com uma caixa ou um vaso de barro. Não era um objeto - era a cabeça de um preso, com um pedaço de pano atravessando-a de uma orelha a outra. Nas tragédias mais recentes, como a do Haiti, o terremoto do Chile, imagens de pessoas sem casas, rostos com olhar perdido. No dia 11 de setembro de 2001, o avião entrando no edifício, os prédios desabando. A foto do pai abraçado ao filho morto, chorando, é mais uma que ficará gravada nas 'minhas retinas fatigadas', como diria Drummond.

Caríssimos que me leem, a vida é frágil demais. Por isso devemos cuidar dela, nos cercar de quem vale a pena, dizer que amamos sempre. Fico pensando que, se aquele pai soubesse que não veria mais o filho com vida, provavelmente teria feito algo diferente no dia. Mas nós nunca sabemos quando é a última vez. Essa é a graça e a desgraça da vida. Vocês já sabem que penso mesmo assim, já perdi muito e sei como dói. Por isso sempre olho para tudo como a última vez. Não digo que estou certa, nem recomendo que ninguém ser assim, até porque não é muito fácil.

Faz pouco tempo tomei uma resolução: não quero me importar com o que não importa. Não é simples, e nem sempre eu consigo, mas até que vem dando resultado. Estou mais tranquila nestes últimos tempos, e penso que talvez seja por isso. A resolução acaba me afastando de algumas coisas, mas é extremamente necessária.

Para terminar, repito: a vida é frágil. E acrescento: é curta. Um cantor também já disse que 'a vida é tão rara'. Então, citando este mesmo cantor, digo que "quando olhar para o lado, só quero estar cercado de quem me interessa". E do que realmente interessa.



Lenine - É o que me interessa

"Daqui desse momento
Do meu olhar pra fora
O mundo é só miragem
A sombra do futuro
A sobra do passado
Assombram a paisagem
Quem vai virar o jogo e transformar a perda
Em nossa recompensa
Quando eu olhar pro lado
Eu quero estar cercado só de quem me interessa

Às vezes é um instante
A tarde faz silêncio
O vento sopra a meu favor
Às vezes eu pressinto e é como uma saudade
De um tempo que ainda não passou
Me traz o seu sossego, atrasa o meu relógio
Acalma a minha pressa
Me dá sua palavra
Sussurre em meu ouvido
Só o que me interessa

A lógica do vento
O caos do pensamento
A paz na solidão
A órbita do tempo
A pausa do retrato
A voz da intuição
A curva do universo
A fórmula do acaso
O alcance da promessa
O salto do desejo
O agora e o infinito
Só o que me interessa"