Eu era feminista ferrenha quando era mais nova. Ou pelo menos achava que era. Hoje tenho mais senso crítico do que é ou não machismo, e talvez hoje seja uma feminista melhor. Porém, não sou radical - não vou deixar de falar com um cara porque ele contou uma piada de loira ou de mulher burra, sei lá. Aliás, um dos meus maiores problemas com o feminismo é saber se devo ou não reclamar de uma piada. Defendo a liberdade de humor, desde que não seja gratuito, com o intuito apenas de ofender. E isso vale pras outras piadas ofensivas também, contra gays, judeus, nordestinos. Piada pode até ser ofensiva, mas para isso tem que ser boa, muito boa. E a linha que separa uma piada do puro preconceito é tão tênue...
Quando era mais nova, ouvia várias vezes que eu não deveria ser feminista, e sim feminina. E, bem, não me considero "não feminina", só não sou mulherzinha - não acho o maior barato passar horas dentro de uma loja de cosméticos, não saio correndo atrás das últimas novidades para me embelezar, não uso maquiagem quase nunca, não curto muito usar rosa. E não quero julgar quem o faz, apesar de isso ser difícil às vezes, eu admito. Tenho meus preconceitos, e luto contra eles.
Falo isso porque meu último post foi bastante feminista, e causou desconforto em algumas pessoas. Sim, eu percebo o desconforto mesmo que vocês, amig@s, não falem nada. Conheço vocês o suficiente para isso. É curioso como sempre que eu contei essa minha história pra alguém tive as mais variadas reações - teve gente se colocou no lugar do cara, dizendo que ele deve ter sofrido por gostar de alguém e não ser correspondido; gente que achou que isso era bobagem, a não ser pela parte que o cara me assustou; gente que se sentiu atingido pessoalmente, como se eu dissesse que todos os homens são estupradores em potencial, e que eu sou uma exceção feliz à regra.
Então, eu me sinto mesmo uma exceção à regra, mas não dessa forma. Veja bem - uma cara de 25 anos se sentir atraído por uma menina de 13 anos magrela (nunca tive corpo de mulherão, nem essa "desculpa" ele tinha) não é exatamente normal ou recomendável. E eu acho que não é segredo o que acontece, na maioria das vezes, quando um adulto se interessa por uma criança a qual ele tem acesso.
Mas o que eu mais mexeu comigo foi o depoimento da menina que foi estuprada num assalto. Eu li e fiquei uns minutos sem saber o que responder. Quando eu fui assaltada pelas "spice girls" (eram 5 meninas, hehe), me senti sem chão, frágil e desprotegida, fiquei muito mal. E elas só tinham levado meu celular e meu bilhete único. Eu imagino como ficaria se tivesse passado por um terço do que ela passou. Minha vontade era de abraçá-la, e eu não posso porque continuo sem saber que ela é. Esse é um direito dela, continuar anônima, e eu vou respeitar.
Conversando com um amigo sobre isso, eu vi que me expus um pouco. Porém eu acho que foi válido. Não sei se a opinião de vocês sobre minha pessoa vai mudar, ou mudou. Sei apenas que escrevi, vocês leram e opinaram. Não sou melhor ou pior por conta do que aconteceu ou deixou de acontecer. Mas estou bem, minha vida continuou, e cá estou eu. Hoje em dia consigo até brincar com essa situação.
A todos vocês que me leram, sabem que eu falei a sério e não para me fazer de vítima, se solidarizaram comigo, ficaram preocupados, quiseram me abraçar e me perguntar se eu estava bem, obrigada. Vocês são demais! Como já disse a Hita, eu tenho os melhores amigos do mundo =D, aqui e em Santos.
O agradecimento é também a vocês que se incomodaram. Eu acredito que vocês me conhecem o suficiente pra saber que eu não quero criar polêmica por criar. E peço que pensem no seu incômodo. Por que ele aconteceu? Pensem no que isso significa, porque isso pode dizer algo sobre vocês, e algo que talvez vocês precisem ou queiram mudar.
INVENTÁRIO DE PERDAS
Há um ano
Amanda, querida, apenas seu comentário logo abaixo do meu post já foi um abraço. Me sinto abraçada por entender e por me permitir expressar mesmo sem saber quem sou. Creio que depois de ter sentido a repercussão que teve a sua história imagina o preconceito por que passa quem já sofreu esse tipo de violência. Tive um namorado que já estava comigo há algum tempo quando eu contei durante um papo. A única coisa que ele me perguntou foi: "você fez o teste de aids depois disso?". Bem... e por ae vai. Sim, fiz o teste de aids e pra outras doenças também. Tomei retrovirais e uma medicação tipo um anticoncepcional que era tomado vários por dia para evitar gravidez... Esse fato não me deixou outras marcas, senão a triste lembrança de ter vivido esta experiência. Obrigada por seu abraço!
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ExcluirDesculpe falar assim, abertamente, mas não entendo essas pessoas que se incomodaram com o seu relato. Só vc que viveu aquela situação constrangedora sabe se aquilo foi traumático ou não... como as pessoas gostam de julgar!
ResponderExcluirÉ... no geral o pessoal ficou preocupado comigo, e aí eu os lembrei que isso aconteceu há muito tempo, e que eu tô bem. Mas eu sei que a sociedade em geral tá pronta pra falar mal de casos assim. O problema é ver o feminismo como uma bandeira radical, o que algumas vezes ele é mesmo. Essa visão transforma tudo o que for um pouco feminista em radicalismo. Tudo bem, eu acho que é apenas questão de pensar um pouco mais.
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