terça-feira, 21 de dezembro de 2010

Esquecer é uma necessidade

Quando você se sente assim, meio estranho, meio faltando algo, você começa a lembrar de como era antes de se sentir assim. É desse jeito que estou. Lembrando de muita coisa, boa e ruim. O fim de ano próximo também ajuda nisso, claro, hehe.

Mas... enfim, sinto faltas. Penso em como minha vida tem sido, no que tenho pensado, o que tem acontecido. E bate arrependimento, de algumas coisas que fiz, do modo como fiz. Infelizmente, não há como voltar pra mudar... mas eu também não tenho certeza que quero mudar.

Meu humor não tá dos melhores, estou me sentindo estranha no mundo. É como se eu tivesse sempre um copo d'água perto de mim e, de repente, me visse no deserto sem nada em volta, nem a possibilidade de um oásis. É isso - perdi meu oásis, que me fazia não perceber, às vezes, que "Grandes são os desertos, e tudo é deserto", como diria o Álvaro de Campos.

Não sei como vou me acostumar com essas faltas. Sinto falta de coisas que lembro, e talvez esse seja o problema. Citando outro dos meus queridos, "Esquecer é uma necessidade", já disse Machado de Assis. Não sei o que fazer com essa vontade que às vezes tenho de largar tudo e ir embora. Vontade que tem sido mais constante nos últimos dias...

Todo mundo precisa de um oásis, eu também. Meu oásis mais possível no momento está longe daqui, e eu não tenho acesso sempre que quero. O que eu tinha aqui ao lado se foi, não volta mais.

Estala, coração de vidro pintado!

"Grandes são os desertos, e tudo é deserto.
Não são algumas toneladas de pedras ou tijolos ao alto
Que disfarçam o solo, o tal solo que é tudo.
Grandes são os desertos e as almas desertas e grandes
Desertas porque não passa por elas senão elas mesmas,
Grandes porque de ali se vê tudo, e tudo morreu.

Grandes são os desertos, minha alma!
Grandes são os desertos.

Não tirei bilhete para a vida,
Errei a porta do sentimento,
Não houve vontade ou ocasião que eu não perdesse.
Hoje não me resta, em vésperas de viagem,
Com a mala aberta esperando a arrumação adiada,
Sentado na cadeira em companhia com as camisas que não cabem,
Hoje não me resta (à parte o incômodo de estar assim sentado)
Senão saber isto:
Grandes são os desertos, e tudo é deserto.
Grande é a vida, e não vale a pena haver vida,

Arrumo melhor a mala com os olhos de pensar em arrumar
Que com arrumação das mãos factícias (e creio que digo bem)
Acendo o cigarro para adiar a viagem,
Para adiar todas as viagens.
Para adiar o universo inteiro.

Volta amanhã, realidade!
Basta por hoje, gentes!
Adia-te, presente absoluto!
Mais vale não ser que ser assim.

Comprem chocolates à criança a quem sucedi por erro,
E tirem a tabuleta porque amanhã é infinito.

Mas tenho que arrumar mala,
Tenho por força que arrumar a mala,
A mala.

Não posso levar as camisas na hipótese e a mala na razão.
Sim, toda a vida tenho tido que arrumar a mala.
Mas também, toda a vida, tenho ficado sentado sobre o canto das camisas empilhadas,
A ruminar, como um boi que não chegou a Ápis, destino.

Tenho que arrumar a mala de ser.
Tenho que existir a arrumar malas.
A cinza do cigarro cai sobre a camisa de cima do monte.
Olho para o lado, verifico que estou a dormir.
Sei só que tenho que arrumar a mala,
E que os desertos são grandes e tudo é deserto,
E qualquer parábola a respeito disto, mas dessa é que já me esqueci.

Ergo-me de repente todos os Césares.
Vou definitivamente arrumar a mala.
Arre, hei de arrumá-la e fechá-la;
Hei de vê-la levar de aqui,
Hei de existir independentemente dela.

Grandes são os desertos e tudo é deserto,
Salvo erro, naturalmente.
Pobre da alma humana com oásis só no deserto ao lado!

Mais vale arrumar a mala.
Fim."

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